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segunda-feira, 6 de março de 2017




Vendidos como cação, tubarão e raia ameaçados de extinção vão parar no prato dos brasileiros









Você sabe exatamente qual é a espécie de peixe que está no seu prato? Em diversos lugares do Brasil, o cação é um muito popular, principalmente por ter um preço mais em conta. O que comumente chamamos de cação são os peixes cartilaginosos, de porte pequeno e médio, como raias e tubarões. Encontrados no mundo todo, habitam, preferencialmente, águas tropicais.
Só no sul do país, há mais de 100 espécies destes tipos de peixe, chamados de condrictes pela Biologia. Todavia, devido à sobrepesca, muitas delas estão ameaçadas de extinção ou em situação muito vulnerável e, por esta razão, sua caça está proibida.
Mas o que pesquisadores gaúchos descobriram é que apesar da proibição, raias e tubarões em risco de extinção, segundo a União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN), continuam sendo vendidos livremente nos mercados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
A equipe de biólogos e estudantes do Grupo de Pesquisa em Evolução, Ecologia e Genética da Conservação, do Programa de Pós-Graduação em Biologia, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS) fez um levantamento ao longo dos últimos anos, coletando amostras de filés vendidos como cação, nas localidades de Torres, Itapeva, Rondinha, Tramandaí, Porto Alegre e Rio Grande, no Rio Grande do Sul, e de Itajaí, Florianópolis, Imbituba, Laguna, Araranguá, Passo de Torres, em Santa Catarina.
Depois disso, por meio de testes de DNA, uma técnica denominada “código de barras de DNA”, as amostras eram identificadas para determinar quais espécies de raias e tubarões eram as mais pescadas nestes estados e comercializadas como cação. “Com essa tecnologia em mãos é possível, com apenas uma pequena amostra do animal, ou mesmo um fragmento do filé de pescado comercializado, identificar rapidamente de qual espécie se trata”, explica Victor Hugo Valiati, biólogo geneticista e coordenador da equipe.
O resultado, como os pesquisadores suspeitavam, apontou que muitas espécies proibidas ainda estão indo parar na rede de pescadores. Entre elas, os biólogos destacam a raia-viola (Squatina occulta), considerada criticamente ameaçada, o tubarão-martelo-entalhado (Sphyrna lewini), classificado como vulnerável e o tubarão-azul (Prionace glauca).
Entre as amostras de filé de cação coletadas, o tubarão-martelo-entalhado foi o mais encontrado: 23% do total. Os filhotes dele ficam facilmente presos em redes e linhas de pesca. Por lei, desde 2014, a captura, transporte e comercialização dele é proibida no Brasil.
Vendidos como cação, tubarão e raia ameaçados de extinção vão parar no prato dos brasileiros
Nem supermercados e nem peixarias sabem exatamente o que vendem. O que acontece é que, para fugir da fiscalização, pescadores jogam fora, ainda no mar, as partes que identificam as espécies, como cabeça e barbatanas, deixando os peixes já em filés ou postas. Valiati denuncia, inclusive, que muitas barbatanas são comercializadas com o mercado asiático porque lá ela é considerada uma iguaria e corpos inteiros de tubarões são descartados.
A única maneira de dar um basta neste crime seria através da implementação de um selo ou certificação no setor pesqueiro. “Ainda acredito que podemos fazer pressão no governo para que isso seja viabilizado”, diz Valiati.
Atualmente no Brasil é realizada apenas a contagem da quantidade de animais retirados das águas, mas não há um controle sobre quais espécies são pescadas. “Enfrentamos um grande problema de sobrepesca em nosso litoral. Somente tendo mais informações sobre quais espécies são capturadas, será possível termos um manejo sustentável”, alerta.
Enquanto isso, o que o consumidor deve fazer? O pesquisador gaúcho aconselha evitar a compra do cação e sugere outras espécies como peixe-rei, sardinha e peixes de rio, como truta e linguado.

O impacto da sobrepesca na vida marinha

A grande maioria das espécies de tubarão não representa risco ao ser humano. Predadores de outros peixes, mamíferos e moluscos, eles estão no topo da cadeia alimentar dos oceanos e desta forma, contribuem para o equilíbrio das populações marinhas. “Retirá-los deste ecossistema causará grande desequilíbrio nos oceanos, gerando, por exemplo, a superpopulação de outras espécies e provocando impacto ainda na vida das comunidades ribeirinhas e do comércio pesqueiro”, afirma Victor Valiati. “Não há como ter certeza do que acontece com a retirada de um predador de topo de cadeia, mas, com certeza, as consequências são catastróficas tanto em termos de biodiversidade como econômicas.”
A pesca indiscriminada também tem grave impacto sobre as raias. “Como são capturadas ainda jovens, cada vez mais percebemos que elas têm um número menor de filhotes porque são mães pequenas”, revela o pesquisador. Estes animais são facilmente pegos pela pesca artesanal com arrastão de praia e industrial. O declínio populacional está associado à elevada mortalidade das fêmeas prenhes, facilmente capturadas nestes locais.
O trabalho de pesquisa da equipe da Universidade do Vale do Rio dos Sinos teve o apoio da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza.
Foto: NOAA Photo Library/Creative Commons/Flickr

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