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O Parque Nacional do Iguaçu é provavelmente o mais sortudo de todos os parques brasileiros por ter uma visibilidade internacional. É o segundo destino turístico no Brasil, atrás apenas do Cristo Redentor, no Parque Nacional da Tijuca, e a beleza cênica de suas 254 quedas d’água lhe auferiram o status de Patrimônio Natural da Humanidade. Iguaçu foi criado há quase 80 anos, em 1939, e protege o último fragmento de Mata Atlântica Interior (longe da costa) do sul do Brasil. Além disso, é tido como exemplo de conservação e manejo pelo resto do país. Mas, na prática, sua situação é bem pior do que o retrato. Sofre pressão crescente da produção agrícola nas suas bordas, corre o risco de ter reaberta uma estrada ilegal que o corta ao meio, e sua espécie mais emblemática, a onça-pintada, está quase extinta dentro dele e na região.
O Parque Nacional de Iguaçu é resguardado por uma legislação ambiental que regula as atividades humanas no seu entorno. Porém, em março de 2011, a pressão de lobbies ruralistas derreteu a zona de amortecimento do parque, que caiu de uma faixa de 10 quilômetros de larguras para apenas 500 metros. A mudança ocorreu sem consulta prévia à comunidade e sem qualquer estudo de impacto ambiental prévio.
O entorno do parque é ocupado por mais de 2.500 km2 (quilômetros quadrados) de lavouras. Só no ano de 2009 foram quase 8 milhões de litros e outros 8 milhões de quilos de agrotóxicos comprados nos municípios nas redondezas do PNI. Os mais utilizados são o glifosato e a atrasaina, fortes desreguladores endócrinos, que produzem uma horrível bagunça hormonal. É cientificamente comprovado que essas práticas da agricultura convencional impactam de forma negativa a biodiversidade, especialmente os anfíbios, ecossistemas aquáticos e também os mamíferos.  Ou seja, inclusive nós!
Os danos da Estrada do Colono
O parque já foi cortado pela Estrada do Colono, uma via de 17,6 km de extensão que cruza a área intangível do parque, aberta ilegalmente no meio do mato, entre 1953 e 1955. Ela foi fechada em 1986 por ordem da justiça, mas voltou a ser invadida três vezes, em 1997, 2001 e 2003, para ser novamente desocupada pela polícia, em situações de grande tensão com os lindeiros. Mas a história não acabou. Tramita no Congresso o projeto de lei 7.123, de 2010, de autoria do deputado Assis de Couto, do PT/Paraná, que reabre a estrada, sob o argumento que isso promoveria o desenvolvimento regional e até a conservação da natureza.
Localização da região do Parque Nacional do Iguaçu e da antiga Estrada do Colono.
Mapa mostra localização da região do Parque Nacional do Iguaçu e da antiga Estrada do Colono.
Meu intuito aqui é compartilhar o que eu vi na Estrada do Colono, em 2001, quando participei de uma expedição para averiguar o estado em que estava. Havia muito dano causado pela passagem de veículos pesados. Encontramos abundância de lixo e placas, porém sinais de bichos também. A maioria das espécies detectadas durante esta expedição era listada como ameaçada de extinção, como o puma, a anta, as lontras e felinos neotropicais de pequeno e médio porte: jaguatirica, gato-maracajá e oncilas.
Na Lista Vermelha da IUCN, as maiores ameaças à sobrevivência dessas espécies são a fragmentação do hábitat, perda de hábitat, caça ilegal e atropelamento. A Estrada do Colono foi causadora de todas elas.
Na verdade, a Estrada do Colono é um exemplo ideal para demonstrar os impactos de uma estrada dentro de uma área de preservação. Ela possui todos os indicadores de alterações associadas a um pronunciado efeito de borda: o empobrecimento acelerado do ecossistema. A estrada representa uma barreira à movimentação da fauna e dispersão de flora, além de acentuar o processo de fragmentação.
Como diz Fernando Fernandez, o efeito de borda como o causado pela Estrada do Colono é “a morte da floresta por dentro”.
Atividades ilegais como extração de palmito, pesca e caça agravam o empobrecimento ecológico observado. Em particular, a caça intensifica a perda de variedade genética de espécies prestes a se extinguirem.
Tenho dados sobre a situação da Estrada do Colono desde 2001. A história é sempre a mesma: além de sinais de fauna, muitos sinais de gente fazendo o que não presta lá dentro. Sempre houve picadas abertas na sua parte sul, nos arredores de Capanema. Segundo Ivan Baptiston, ex-diretor do Departamento de Proteção e atual Chefe da unidade de conservação, infratores vêm de Capanema por dois motivos: a falta de patrulha contínua nesta região e o acesso rápido ao parque pelo rio Iguaçu.
Os dados que acumulei são constrangedores e eu os compartilhei com o governo via SISBIO. Há humanos por todo o canto no parque, acompanhados por cães domésticos e de caça. Era claro, a impunidade reinava.
A extração de palmito era comum em áreas próximas à Capanema, Matelândia, Missal e entorno.Evidência de corte ilegal de palmito no Parque Nacional do Iguaçu, com serrote, em 2014, demonstra impunidade.
No último monitoramento, de 2012 a 2014, registramos a presença de 30 espécies de mamíferos em 6.190 dias de uso de armadilhas fotográficas. Apesar de eu ter intencionalmente escolhido os locais mais resguardados para instalar as câmeras, três foram roubadas por infratores, pois eles são onipresentes no parque.
As últimas onças-pintadas
Um dos animais emblemáticos e mais dependentes do Parque Nacional do Iguaçu é a onça-pintada. A espécie está sob sério risco de extinção na eco-região da Mata Atlântica do Alto Paraná. A população total do bioma inteiro foi estimada em menos de 250 indivíduos. O parque deveria ser seu santuário, mas lá dentro as onças ainda morrem abatidas por tiros de caçadores.  Na região do parque, além da caça, elas morrem também atropeladas ou abatidas por predar criações domésticas.
Sabe quantas sobraram?
Na minha pesquisa, produzi 248 mil fotos, nas quais flagrei onças-pintadas apenas 15 vezes. Mas calma, não são 15 animais, mas apenas três, que aparecem nas fotos abaixo. O coordenador do projeto Carnívoros do Iguaçu, Apolônio Rodrigues, reconheceu uma das fotos, de uma onça-fêmea. ”É a Naípi”, disse, um animal que ele monitorava, cujo sinal tinha sido perdido um ano antes.

Três onças-pintadas, as únicas registradas ao longo de 25 meses por 16 câmeras que tiraram 247.693 fotos, das quais 15 imagens capturaram esses animais.  Clique nas imagens para ampliá-las
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Os primeiros dados científicos e históricos que temos para o Parque de Iguaçu estão na tese de doutorado de Peter Crawshaw. Entre 1985 e 1995, ele estimou a densidade de onça-pintada para o parque inteiro em 134 indivíduos, dos quais 64 adultos.
Ao ler a tese de Peter, descobre-se com horror que morreram todas as oito onças que ele monitorava com rádio-colares. Três fêmeas foram mortas por caçadores dentro do parque. Em seguida, dois machos, irmãos de ninhadas sucessivas, foram abatidos por caçadores usando um jirau instalado na área de visitação. Outro macho adulto também foi baleado de um jirau, e, mais tarde, morreu atropelado por um caminhão na BR-277, na altura do município de Céu Azul. Dois outros exemplares equipados com rádio-colares desapareceram prematuramente e não foram encontrados apesar de muitas buscas aéreas. Finalmente, no mesmo período, Crawshaw registrou a morte de dois animais que não faziam parte da sua pesquisa: um filhote de 20 kg e um macho adulto, capturado por se tratar de um “animal problema”, triste nome dado aos animais que atacam criações domésticas. Isso aconteceu numa propriedade na beira do parque, do lado argentino. O animal foi relocado para o parque provincial Urgua-í, na Argentina e apareceu morto uma semana depois.
Saldo: 100% de mortalidade ao longo de dois anos da fase de monitoramento. Sabe quanta pressão é isso?
Na Argentina, do outro lado do rio Iguaçu -- que serve de fronteira com o Brasil -- está o Parque Nacional del Iguazú, contíguo ao parque brasileiro. Lá, entre 2004 e 2010, os dados de armadilhas fotográficas de Augustín Paviolo trouxeram outras informações dramáticas sobre a situação dos grandes felinos desta eco-região. Paviolo calculou uma densidade de onças-pintadas entre 0,53 e 0,85 para cada 100 km2. Nos cálculos de Peter, feitos em 1995, a densidade encontrada foi de 3.7 onças adultas/100 km2. Isso significa que em cerca de uma década a densidade de onças caiu para, na melhor hipótese, um quarto do que era.
Sabemos que os animais se deslocam entre os lados argentino e brasileiro, fato constatado tanto por Crawshaw quanto por Paviolo. Isso sugere que esta última estimativa de densidade deve ser parecida nos dois parques.
O projeto Carnívoros do Parque Nacional do Iguaçu estimou a população do parque, no lado brasileiro, entre 6 e 12 onças-pintadas, depois revisada para 18. Qual é o número exato? Não se sabe. Mas mesmo para o pesquisador mais otimista, a conclusão é: o mais provável é que a população de onças-pintadas local esteja condenada à extinção.
Após uma década de monitoramentos de curto e longo prazo, a conclusão da minha pesquisa de doutorado é que a fauna do parque está empobrecendo e só restam espécies generalistas, como quatis, iraras, catetos, cotias e gambás. As pressões ambientais são intensas e abrangentes, A onça-pintada, maior predador do Iguaçu, está à beira da extinção local. Neste caminho, o Parque Nacional do Iguaçu se tornará a “floresta vazia” de Kent Redford.
É sinistro? Sim.
Em vista a tudo isso, pense nesta:  se não é possível proteger 440 km de perímetro do Parque Nacional do Iguaçu de ataques diários por todos os lados, o que pode se esperar da reabertura da Estrada do Colono, que implicará no desmatamento e pavimentação de mais 21 hectares no cerne do parque?
O projeto de lei que reabre a Estrada do Colono é uma ofensa ao senso comum. Faz da legislação uma ferramenta de lobbies econômicos e políticos, sem pena de pisar no patrimônio natural. É tão grave, que se a estrada for reaberta a Unesco pode retirar do Parque o título de Patrimônio Mundial da Humanidade.
O que me move a publicar esse artigo é contar ao público o que vi e vivenciei em 10 anos acumulados como pesquisadora do parque, principalmente da conservação dos felinos e mamíferos. Meu desejo é que essas informações não fiquem escondidas dentro de relatórios técnicos e trabalhos acadêmicos. Os cidadãos precisam entender o que está acontecendo e precisam se mobilizar pela proteção deste tesouro, antes que ele desapareça.

*Anne-Sophie Bertrand é formada em biologia pela Universidade de Poitiers, França, e doutorada em fevereiro de 2016 pela Universidade de Aveiro, Portugal, com a tese “Caracterização e conservação do Parque Nacional de Iguaçu, defendida com base em dez anos acumulados de pesquisa no parque. Chama o amigo Peter Crawshaw de muso inspirador por mostrar-lhe Iguaçu e indicar o trabalho que precisava ser feito.