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domingo, 8 de novembro de 2015

TRANSGÊNICOS, BIORISCO E SEGURANÇA ALIMENTAR.

Este é um texto de reflexão sobre o que comemos, como comemos e sobre os significados históricos e culturais do processo de transformação do alimento em produto e do produto em alimento.

Nos últimos vinte anos, passamos por vários problemas de saúde aqui em casa, o surgimento da hipertensão, a necessidade de constante vigilância dos índices de glicemia e triglicerídeos (posteriormente o colesterol também), bem como (no meu caso) a perda da vesícula, acabaram ocasionando uma atenção maior aos alimentos e seu preparo. Não é de hoje que a nossa alimentação vem se modificando: nos anos 90 diminuímos o sal e cortamos boa parte da gordura, nos anos 2000 foi a vez de diminuir radicalmente o fast food e os alimentos processados e incluir na dieta o azeite extra virgem, as castanhas e o os peixes com ômega 3, finalmente na década em curso tivemos que diminuir o açúcar e incorporar as especiarias.
Agora chegou o momento em que tivemos que aderir aos produtos orgânicos e passar a vigiar radicalmente os produtos industrializados a procura do famigerado “tezinho” dentro do triângulo amarelo. Sim, porque os alimentos e produtos transgênicos chegaram sem avisar e invadiram nossa vida sem ser chamados. Hoje, soja e milho são transgênicos, em sua maioria, o que quer dizer que, além de geneticamente manipulados, recebem doses maciças de herbicidas agrotóxicos e não deveriam ser liberados para o consumo, apenas para a produção de combustíveis.
A consciência alimentar tem um custo, alimentos orgânicos são muito mais caros que aqueles produzidos com doses maciças de adubos químicos e herbicidas, em detrimento de nossa saúde. A carne, produzida sem aditivos químicos, além de rara é de tal modo cara que torna seu consumo impossível. Do mesmo modo, para nós que adoramos a comida japonesa, é necessário consumir shoyu, missô e tofu importados para ter certeza de que o produto não contenha soja transgênica (há controvérsias!!!).
E por ai vai, produtos norte-americanos devem ser evitados devido às deficiências em sua rotulagem e à operação quase criminosa da Monsanto na indústria alimentícia local. Do mesmo modo que, os laticínios argentinos também apresentam altos níveis de contaminação química. E sabe lá o que mais que nem sabemos…
A pergunta é: não podemos comer mais nada?????!!!!!
Não deveríamos, mas, como não temos alternativa, seguem aqui algumas dicas que venho desenvolvendo nos últimos meses para evitar males maiores.
o    Passe longe da seção de congelados do supermercado, os pratos prontos usam soja e amido de milho transgênicos para obter textura e consistência.
o    Pesquise as feiras de produtos orgânicos e compare preços com os mercados à procura de alimentos mais baratos; você também pode se aproximar dos produtores e estabelecer um canal de diálogo para negociar preços para condomínios, escolas ou famílias extensas.
o    Verifique sempre a fórmula ou composição dos produtos e alimentos industrializados, mesmo não sendo geneticamente modificados, podem ser tóxicos.
o    Pesquise o máximo que puder, sempre existem alternativas: procure receitas que ensinem a substituir os produtos contaminados por alimentos com funções similares.
o    Esqueça o fast food, faça em casa, dá trabalho, mas pode ser a ajuda que faltava para reunir a família em torno de interesses comuns.
o    INFORME-SE!!!!! Hoje, a informação é uma arma da qual não podemos prescindir e está tudo por ai na internet, é só ter paciência para procurar.
o    Se você for como nós, que vivemos do próprio trabalho e não podemos dispor de um grande orçamento, minimize: continue consumindo a proteína animal convencional, mas opte por frutas, verduras e legumes orgânicos.
o    Se os molhos e temperos no mercado usam soja e milho transgênico, plante ervas no seu quintal, ou em vasinhos na lavanderia, e abuse dos temperos naturais.
o    Tome cuidado com restaurantes, cantinas e marmitex, que são ótimos em emergências ou na pressa, mas podem mascarar uma comida nada saudável.
o    Recentemente descobrimos que o fermento químico (aquele mesmo da latinha Royal, que aprendemos a usar com nossas mães ao preparar o primeiro bolo) é um produto transgênico porque vem sendo diluído com maisena, pelo fabricante, visando um lucro maior. Já havíamos abolido a maisena devido ao “t” na embalagem e passamos a pesquisar um substituto para o fermento também. E, hoje, podemos garantir que encontramos a solução: uma parte de bicarbonato de sódio para duas partes de cremor tártaro e seu bolo ficará até melhor do que antes.
Mesmo assim, chegamos à conclusão de que não basta mudar a alimentação se não houver uma mudança na consciência e percepção do alimento e suas funções. Comemos por prazer, mas, biologicamente, comemos para obter os nutrientes que possibilitem a nossa sobrevivência nas melhores condições possíveis. Quando a comida deixa de cumprir sua função como alimento e, quando aquilo que lhe dá sabor torna-se veneno, então está na hora de parar e reavaliar.
Historicamente, passamos por um período em que a massificação do consumo transformou os alimentos em produtos e determinados produtos em alimentos, em detrimento de nossa saúde, da saúde do planeta e da sobrevivência de setores inteiros da sociedade, alijados da produção pelas grandes corporações agroindustriais e alimentícias. Isso significa que as famílias que sobreviviam da agricultura familiar em pequenas propriedades pelo planeta afora, hoje são pressionadas, social, política e economicamente para ceder seus espaços às grandes corporações.
As corporações alimentícias visam lucro, acima de tudo, e pressionam os setores do executivo e do legislativo (junto aos governos) para ter seus direitos assegurados e seus produtos aceitos sem crítica ou discussão. E as últimas duas gerações são cúmplices porque preferem abrir um pote ou uma lata e encontrar algo que levemente lembre um alimento, do que ir para a cozinha e transformar o alimento fresco em comida, como acontecia no passado.
Se estamos defendendo uma volta ao passado? De maneira alguma, hoje sabemos muito mais sobre o valor nutricional dos alimentos que duas gerações atrás. Mas não basta saber se o alimento usado estiver contaminado com genes manipulados ou herbicidas agrotóxicos. Temos que mudar algumas práticas cômodas e retomar o contato com produtos naturais.
Não temos todas as respostas, este é o início de uma caminhada que poderá definir nosso futuro como espécie. O que não podemos é permanecer indiferentes enquanto dispõem de nossa segurança alimentar para beneficiar uma dúzia de corporações que já possuem os governos de metade do planeta. A nossa única arma, neste momento, é a informação e com ela podemos criar pequenas ilhas de sanidade em meio ao massacre ideológico promovido por esses mercados.


Um comentário:

Paulo disse...

A comida é sempre um tema polêmico. Mas há algumas regras básicas que o texto acima parece desrespeitar:
Primeiro: nada deve ser proibido na dieta, exceto se temos algum problema específico de saúde (diabetes, intolerância à lactose, doença celíaca, etc.). Afinal, já nos ensinava o velho Paracelso, 800 anos atrás: o veneno é feito pela dose. Assim, passar longe da comida A, B ou C é tolice. O importante é comer de tudo, seja la o que for, com moderação.
Segundo: melhor do que seguir uma dieta baseada num sistema de produção (orgânico) é seguir uma dieta bem variada, com tudo que a natureza nos oferece, processado industrialmente ou não, produzido organicamente ou não. Mais uma vez, o segredo é o equilíbrio.
Terceiro: jamais seguir modismos alimentares..., é bacana provar das novidades e mesmo incorporar um pouco delas na dieta, mas deixar de comer banana para comer quinúa é de uma bobagem feroz.
Quarto: não existe prova alguma de que os transgênicos façam mal ao homem ou aos animais de produção e companhia. Ao contrário, bilhões de animais são alimentados anualmente com rações que levam muito milho ou soja transgênicos e não mostram qualquer problema. Da mesma forma, milhões, talvez bilhões de seres humanos também consomem comida formulada com transgênicos ou diretamente milho ou soja transgênicos e não há um único relato sério (verdadeiro) de doença causada por isso. Isso só confirma as avaliações de risco feitas por TODAS as agências oficiais de todos os governos do Mundo. Meter na cabeça que os transgênicos fazem mal à saúde é acreditar em fantasia.
Concluo: comamos com moderação de tudo, se não tivermos alguma restrição dietética por problemas médicos específicos. E incluamos no nosso ESTILO DE VIDA o exercício diário moderado, a alegria de viver, a comunhão desta alegria com os outros e uma boa dose de esperança. Veremos que bananas, óleo se soja, pasteizinhos, lasanha congelada, tofu transgênico e todas estas coisas nunca vão nos fazer mal. E vamos constatar na prática oque dizem os nutricionistas competentes e os avaliadores de risco.