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terça-feira, 3 de novembro de 2015

Os males ignorados do tabaco

POR 
JOÃO PERES

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No rastro de uma planta cultivada com volumes brutais de agrotóxicos, uma multidão de lesados e suicidas. Há esperança: parte dos agricultores descobre a agricultura orgânica de frutas
Por João Peres e Moriti Neto, na Pública
Difícil acreditar que o solo de onde antes só brotava fumo, hoje dê morangos tão saborosos. Nem é necessário açúcar: basta colher e experimentar o fruto saído direto da terra. Isso é apenas parte do trabalho liderado por um rapaz de 20 anos – e que aparenta ter menos idade. O nome é Anderson Rodrigo, membro da família Richter.  A ascendência é alemã, algo que fica expresso no sotaque. Os antepassados chegaram ao Brasil durante o grande fluxo imigratório de alemães no século 19, caso da maioria das pessoas que mora na região do Vale do Rio Pardo, no interior do Rio Grande do Sul, especialmente nos municípios de Santa Cruz do Sul e Venâncio Aires. Os dois são uma espécie de capital informal da produção de fumo do Brasil, sede das principais empresas do setor. Venâncio, com pelo menos 3,7 mil famílias envolvidas na cultura, segundo estimativas da prefeitura da cidade, é conhecido também por ser a capital da erva-mate e carrega ainda o incômodo posto de ser um dos líderes de suicídios no país.
O terreno na comunidade de Linha Santana em que se localiza a propriedade de Anderson, em Venâncio, era grande quando Adolfo Richter, o primeiro antepassado de que ele tem notícia, chegou. As casas, a igreja, muito se construiu em torno dela. Outros Richter vieram, formaram as próprias famílias. Dividiram a terra. E o fumo se espalhou por todos os pedaços. Anderson não escapou a essa herança. Conta que, quando se deu por gente, estava cercado por tabaco. “Nem vi acontecer. Quando eu nasci, já era assim fazia muito”, conta. E foi com a presença intensa desse monocultivo que ele cresceu. Ao lado dos pais, Heitor e Marilei, auxiliou no plantio até os 14 anos, em 2009. Foi então que começou a virada.
Naquele ano, começou os estudos de agroecologia na Escola Família Agrícola de Santa Cruz do Sul (Efasc), onde se formou, em 2011. Atualmente estudante do curso superior de Tecnologia em Agroecologia na Horticultura, na Universidade do Estado do Rio Grande do Sul (Uergs), o rapaz fez uma aposta para escapar à cultura do tabaco e aos agrotóxicos. De início, contou com o apoio de duas jovens: a irmã mais nova, Andressa Rafaela, de 16 anos, e a namorada, Micaela Hister, de 19, que conheceu na Efasc. “Quando começamos, tínhamos apenas um pedacinho de terra na propriedade dos meus pais, que não acreditavam que daria certo. Agora, já conseguimos ampliar e eles estão ajudando”, conta o jovem, que sonha com a criação de lavouras demonstrativas para espalhar a cultura agroecológica em Venâncio Aires.

No entanto, a mudança não foi fácil. E não só pela resistência inicial dos pais, mas pelo caldo de cultura que influencia toda a comunidade. Um contexto erguido a partir da planta do tabaco, que fez brilhar os olhos de uma indústria ao enxergar a região. “Lembro de olhar em volta quando era pequeno e só ver folhas de fumo. Não só na propriedade da minha família, mas nas que estão no entorno. Tinha uma sensação de opressão por isso”, explica Anderson.
Hoje, as terras dos Richter não têm um só pé de fumo. Os jovens produzem morango, hortaliças, temperos. Entregam em feiras e para iniciativas de compras públicas, como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae). Na busca por diversificar receitas, também vendem a professores da Uergs. O esterco de suas vacas e porcos é a fonte para o adubo, em que aplicam um composto que reduz a presença de metais pesados. “O começo foi duro, mas a gente se libertou com isso. Tiramos os agrotóxicos das nossas vidas e das vidas das pessoas que compram nossos produtos. E saímos da cultura do fumo, que tira a autonomia do agricultor, desconsidera o saber dele. A empresa fumageira que faz contrato com ele decide tudo. O agricultor não é dono do processo que pratica na própria terra. Ele é só mão de obra”, critica Anderson Rodrigo.
Entre a década de 1950 e o início dos anos 2000, o fumo carregou “tempos dourados” para Venâncio Aires e região. O tabaco dava dinheiro e, segundo os Richter, era mais fácil se concentrar “só em uma coisa”. “Era como o cara da fábrica que aperta só um botão. As pessoas se especializam em plantar fumo, sem perceber que nem isso é de verdade, porque chegam os técnicos das empresas e dizem como e quando tem que fazer”, diz o jovem produtor. Anderson se refere à figura do orientador das fumageiras, que, na realidade, é quem dita as regras de como o plantio tem de ser durante todo o ciclo produtivo. “É esse cara que chega e diz ao agricultor: ‘Por que você vai plantar horta, se você pode plantar fumo naquele pedaço de terra?’. E aí, quando você vê, já não faz nada de diferente do que a empresa manda fazer e outras culturas são abandonadas”, comenta.
O rapaz sabe do que fala. Viveu na pele os efeitos da prisão que é a cadeia do tabaco. Trabalhou, ainda criança, nas lavouras de fumo. Viu a família sofrer, inclusive fisicamente, e abrir mão de muito. Heitor, o pai de Anderson, hoje com 45 anos, foi um caso. Começou a plantar fumo aos 14 e passou 26 anos no cultivo. “Já não ia mais para a escola, nem concluí o ensino fundamental. Não dava para conciliar. O tabaco desgasta muito e eu tinha que ajudar meus pais”, recorda.
Heitor e a família chegaram a cultivar 94 mil pés de fumo nos picos de produção. E os problemas de saúde vieram. Dores de cabeça, indisposição, vômitos e manchas na pele eram recorrentes, mas o trabalho não podia parar. A dura época da colheita, entre novembro e janeiro, ficou marcada como o pior período. Com chuva forte ou sol escaldante, era preciso colher as folhas e secá-las na estufa. Depois, as plantas secas ficavam depositadas em um pequeno depósito quase sem ventilação. A família se reunia nesse local para classificar o fumo de acordo com a qualidade, o que definia o preço. “Não podíamos atrasar uma fornada. Senão, não conseguíamos mais o ponto certo do fumo e perdíamos o trabalho”, descreve Heitor.
A utilização de agroquímicos na plantação de tabaco foi compreendida pelos familiares como algo que atacava a saúde e também degradava o ambiente. O cultivo manual, a retirada folha por folha, deixava evidente que, independentemente do quanto se usa de veneno nas plantas, se mais ou menos do que em outros tipos de lavoura, era necessário encarar a realidade: os agroquímicos fazem entrar num ciclo penoso, pessoas adoecem e a terra também. Não sobra matéria orgânica para o solo. “Conforme não tem matéria orgânica, o solo vai se degradando e a planta não consegue se desenvolver. Os próprios adubos sintéticos perdem a eficácia, pois se espalham pela terra e a planta absorve só no ponto em que está a raiz. Então, tem que aumentar a dosagem para chegar ao que ela precisa para crescer. E, como o fumo toma todo o espaço da terra e as empresas colocam metas de tempo e quantidade para o agricultor entregar, o raciocínio é usar agrotóxico o tempo inteiro”, detalha Anderson.
Mesmo nessas condições, Heitor só saiu do plantio do fumo em 2010. Atualmente, cria gado leiteiro e auxilia os filhos nos cultivos agroecológicos. Ele queria ter parado antes, mas tinha dívida com uma fumageira, feita na aquisição de produtos e equipamentos prevista em contrato com a empresa. “Sempre quando eu tinha dívida, o preço que pagavam pelo fumo não era bom, foi difícil de sair.”
A saída se deu com o leite dado pelas vacas da propriedade e a diversificação da produção, estimulada pelos estudos de Anderson na Efasc. O débito, em 2009, quando o jovem ingressou na escola, já estava perto de ser quitado. “A dívida, se a gente tivesse feito mais, não ia ter como parar. É nisso que muito agricultor entra e perde, cada vez mais, o poder de decisão”, salienta Anderson.
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Resistência e libertação – Anderson e Micaela saíram do cultivo do fumo para a agroecologia. Foto Gustavo Nunes
Micaela, a namorada dele, mora na propriedade da família Richter, mas é nascida em Sobrado, outra cidade da região. De lá, foi para General Câmara, a 66 quilômetros de distância de onde reside hoje. Foi nesse lugar, desde os 10 anos, que passou a ajudar no cultivo do fumo, no qual continuam seus pais, Jorge e Traudi Hister. “A propriedade que meu pai tem hoje [em General Câmara] é um local que uma pessoa comprou e não conseguiu pagar a dívida com a fumageira (a Alliance One, de origem norte-americana). Meu pai assumiu a dívida e ficou com o lote”, afirma Micaela.
Mais uma linha do modo de atuar das fumageiras está exposta. Na época do loteamento feito pela empresa, quem comprava uma porção de terra era obrigado a pagar plantando fumo. Muitos pequenos produtores não conseguiram dar conta das metas impostas pelos contratos e perderam os terrenos. Os pais de Micaela não chegaram a passar por isso. De qualquer forma, confrontaram situações que também os levam a querer parar com a atividade. “Meu pai começou a plantar porque era a tal história da cultura que tinha venda garantida. Chegou a ter oito hectares de fumo, 210 mil pés por safra”, conta a moça.
A fumageira, então, colocava mais metas e novos “investimentos” eram exigidos. Vieram as dívidas e a necessidade de muita mão de obra. Jorge passou a ir até a periferia de General Câmara para juntar gente que aceitasse trabalhar na colheita. Lotava uma Kombi com moradores de áreas pobres do município. Para agravar a situação, a filha e a esposa tiveram a saúde fragilizada. Micaela conta que, quando morava com os pais, estava “sempre mal”, com náuseas. Traudi, a mãe, tem dores de cabeça e tonturas que não a abandonam. “A fumageira defende que é a nicotina que tem na folha do tabaco que faz mal, mas a gente sabe que o agrotóxico tem parte aí”, lembra a jovem, que relacionou seus estudos universitários a pesquisas sobre o tema.
Aos poucos, os pais de Mica, como a moça é chamada pelos familiares, diminuíram a produção de tabaco. Nos últimos anos, plantam, em média, “apenas” 60 mil pés. Passaram, assim como Heitor, a investir no leite, mas ainda têm medo: não estão certos de que “vai dar” se abolirem o fumo de suas vidas e partirem para outra cultura. “Eles têm muita dívida, de compra de máquinas. Mesmo a terra, ainda estão pagando para a empresa”, esclarece a jovem.
Anderson acredita que a dificuldade em encontrar alternativas ao tabaco passa pela falta de organização. Para ele, os agricultores engolem o sistema imposto pelas fumageiras e se acomodam. E, se buscam uma saída, vão geralmente na direção de outra cultura que os empurra para condições semelhantes, com a perda da autonomia e do saber camponês. “Isso não é saída. O agricultor tem que ser o dono do processo e só vai ser se usar aquilo que tiver de experiência em diversas culturas. Se sair do fumo de um ano para o outro porque viu que tem uma doença e for para um cultivo que traz um pacote igual, vai acabar voltando, já que o fumo tem a venda certa, ainda que de acordo com contratos ruins”, aconselha.
Para mudar de verdade, são fundamentais a paciência e a persistência, o que garantiria uma boa transição. “Claro que não é fácil, tem que modificar hábitos, aperfeiçoar a terra, mas dá para melhorar a qualidade de vida e também, com o tempo, ganhar melhor do que com o fumo, posso garantir. As pessoas que plantam no sistema oferecido pelas fumageiras são acostumadas a trabalhar com o corpo e não com a mente. A empresa traz tudo pronto. Quer sair? Então, o agricultor tem que pensar sua produção”, argumenta Anderson.
Delicada de tocar, faltava abordar uma questão com os Richter. Eles teriam informações dos suicídios de agricultores em Venâncio Aires? A resposta vem demolidora, nas palavras de Anderson: “Meu bisavô se suicidou em junho, aqui pertinho, nas terras dele”. Waldemar Richter plantou fumo praticamente a vida toda. Fazia tempo, era vítima da depressão. Matou-se por enforcamento, aos 85 anos.
Anderson crê que o suicídio do bisavô se deu por dois motivos: dívidas e uma longa vida lidando com agrotóxicos. “O veneno te leva para o precipício e o endividamento te dá o ultimo chute”, diz, encerrando com um alerta: “Na comunidade, tem outros casos de suicídio, também com plantadores de tabaco”.
A doença do suicídio
O Rio Grande do Sul é um dos estados que reúnem os melhores indicadores sociais no Brasil. Na contramão disso, está à frente também em suicídios, causa de tragédias familiares e debates efervescentes entre pesquisadores. As estatísticas do povo gaúcho atingem o dobro da média nacional. Entre 2007 e 2011, o estado teve 10,2 mortes por suicídio a cada 100 mil habitantes. Dados do Ministério da Saúde mostram que nove das vinte cidades acima de 50 mil habitantes que tiveram mais casos proporcionais estavam no Rio Grande do Sul. A maioria, no Vale do Rio Pardo.
Apesar de estar entre os municípios mais ricos do estado, Venâncio Aires, com 69 mil habitantes, teve 79 casos em cinco anos, o que equivale a 23,1 para cada 100 mil habitantes, na média extraída do período pesquisado pelo ministério. Isso deixa a cidade numa preocupante e mórbida segunda colocação na contagem dos suicídios no país e na primeira em solo gaúcho.
Em uma cidade que possui baixo índice de criminalidade, a polícia se ocupa muito da investigação de suicídios. E a hipótese predominante ao senso comum é a influência da cultura alemã e o rigor trazido por ela. Do ponto de vista da saúde, a informação é que 10% dos leitos do principal hospital local são reservados para a psiquiatria e a prefeitura investe em programas de prevenção, com internações e grupos de ajuda. Uma unidade do Centro de Valorização da Vida (CVV) foi instalada na cidade. Contudo, abrir o leque dos motivos de suicídios com os moradores, autoridades e associações é um tabu.
A Associação dos Fumicultores do Brasil (Afubra), que tem sede na região, rejeita a relação dos suicídios com o uso de agrotóxicos, mas, ainda assim, faz questão de afirmar que, hoje, o composto é pouco utilizado nas lavouras. Já o Sindicato Interestadual da Indústria do Tabaco (SindiTabaco), que representa as empresas, divulga a posição de que “atrelar casos de suicídio ao uso de agrotóxicos na cultura do tabaco é uma afirmação inconsistente”. O argumento de que lança mão a entidade é que, dos dez municípios com maior índice de tentativa de suicídios no Rio Grande do Sul, “apenas” três possuem “grande” produção de tabaco – Venâncio Aires, Santa Cruz do Sul e Canguçu.
A tentativa de atenuar o sofrimento dos agricultores da cultura do tabaco também parte das autoridades. Foi o que demonstrou, em setembro do ano passado, o prefeito de Venâncio Aires, Airton Artus (PDT), que está no segundo mandato. Durante a disputa à Presidência da República, ele procurou diálogo com a então candidata Marina Silva durante um evento em Porto Alegre. Artus não hesitou em aproveitar a oportunidade de falar sobre a “importância do setor fumageiro para as famílias de agricultores” e “desmistificar” as informações correntes sobre o segmento.
Ao entregar um documento sobre o setor, ele mencionou a relevância social e econômica do fumo. Basicamente, o que se fez foi compilar dados ofertados pelo SindiTabaco e pela Afubra. “Em 2013, o tabaco representou 1,3% do total das exportações brasileiras, com US$ 3,27 bilhões embarcados. Da produção de mais de 700 mil toneladas, mais de 85% foram destinados ao mercado externo. Para o Sul do país, a cultura é uma das atividades agroindustriais mais significativas. No Rio Grande do Sul, a participação do tabaco representou 9,3% no total das exportações; em Santa Catarina, 10,2%.” O Brasil é o maior exportador de fumo, posto disputado palmo a palmo com a Índia há duas décadas. Quase 90% da produção é enviada a uma centena de países, China à frente.
Em julho de 2015, Artus foi eleito o novo presidente da Câmara Setorial da Cadeia Produtiva do Tabaco, grupo técnico ligado ao Ministério da Agricultura. A se levar em conta: o prefeito é médico de formação e, além de pretender “desmistificar” a relação entre o cultivo do fumo e o sofrimento dos trabalhadores, quer mostrar ao governo federal que não existe relação direta entre a produção e o consumo de tabaco. Ele diz que, se o Brasil deixar de plantar, outro país assumirá esse mercado. “A fumicultura tem considerável importância socioeconômica no Rio Grande do Sul e em toda a região Sul do Brasil. Em Venâncio Aires, o setor tabagista, desde a produção, beneficiamento até a exportação, gera riquezas anuais superiores a R$ 600 milhões, o que representa cerca de 70% do valor adicionado do município”, defende.
Entretanto, ainda nos anos 1990, o primeiro arejamento de ideias sobre essa questão veio com uma pesquisa da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que trouxe para o centro do debate o uso de agrotóxicos chamados organofosforados como causa para o alto número de suicídios entre fumicultores. O trabalho indicava a perspectiva de o veneno causar distúrbios comportamentais no agricultor.
Passadas duas décadas, a Pública entrevistou o engenheiro agrônomo e florestal Sebastião Pinheiro, hoje aposentado do cargo de professor da UFGRS, mas ainda ativo no Núcleo de Economia Alternativa da universidade. Ele foi um dos responsáveis pela pesquisa, divulgada em 1996, que já avaliava a relação entre o índice de suicídios, o cultivo de fumo em Venâncio Aires e os agrotóxicos. Pinheiro diz que novos estudos não chegaram a nenhuma conclusão porque “destoam da realidade”. O pesquisador diz que a causa do aumento de casos de suicídio e depressão na região é clara: “As pessoas, adultas ou não, colhem fumo com as mãos e carregam as folhas embaixo dos braços, o veneno entra no corpo e provoca depressão. Depois, a doença se agrava e vêm os suicídios”.
Após essa pesquisa, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) financiou um novo estudo, com médicos e pesquisadores, mas Pinheiro não participou. Alguns levantamentos foram feitos, mas restaram inconclusivos. “Suicídio não tem uma origem única e direta. Pode ter uma série de fatores. Assim, um grupo de médicos não tem condições de analisar alterações no campo eletromagnético (pequenos campos magnéticos que dão estabilidade e equilíbrio às moléculas do corpo humano) de pessoas expostas a praguicidas ou agrotóxicos e, se eles não têm capacidade de avaliar isso, o resultado do trabalho destoa da realidade”, sentencia Sebastião Pinheiro.
De acordo com o engenheiro, a maioria dos agrotóxicos é responsável por alterações no comportamento das pessoas, o que, entre diversos males, leva à predisposição ao suicídio. Ele conta que analisou documentos internacionais civis e militares e encontrou elementos científicos que comprovam a existência da depressão causada por intoxicação, desencadeadora de suicídios.
A pesquisa da UFRGS aqueceu o debate, mas, sozinha, pôde fazer pouco. Um projeto de lei que tenta banir o uso de agrotóxicos organofosforados chegou a ser encaminhado ao Congresso Nacional, tomando-a como base. A proposta, no entanto, está parada desde 2011.
Nas andanças pela região, Sebastião descobriu também que crianças em idade escolar, no município vizinho de Santa Cruz do Sul, onde se concentram as sedes das fumageiras, chegaram, nos anos 1990, a tomar medicamentos fornecidos pela prefeitura para conter os efeitos da depressão. “Como as lavouras envolvem toda a família na produção, porque o cultivo é muito trabalhoso, as crianças também participam e ficam expostas”, explica o agrônomo. Segundo Pinheiro, o trabalho com o fumo é algo que necessita de muito esmero do agricultor. “O agricultor que cultiva o fumo tem uma mão de obra muito qualificada, mas é mal remunerado e fica exposto a doenças terríveis. Enquanto isso, uma associação como a Afubra enriquece com o ciclo produtivo do tabaco. Vá até uma loja da associação, tem supermercado, eletrodomésticos. Já vi vendendo até automóvel”, diz.
Autor do livro Fumo: servidão moderna e violação de direitos humanos (Terra de Direitos, 2005), o também pesquisador Guilherme Eidt Gonçalves de Almeida, especialista em direito sanitário pela Fiocruz, chama atenção para a conexão entre os meses de uso mais intenso de agrotóxicos nas lavouras de fumo (outubro, novembro e dezembro) e o período com maior número de suicídios. O mês de abril, que apresenta também índices altos de suicídio, coincide com a época da preparação dos canteiros pelos plantadores de fumo, afirma Eidt.
Sebastião Pinheiro lembra que o grau de toxidade dos agrotóxicos utilizados no país não é medido corretamente. “A classificação é enganosa para atender aos interesses da indústria do veneno. Assim, a periculosidade e a insalubridade a que estão expostos os agricultores não têm tamanho no Brasil, literalmente. E os mais vulneráveis são os que não podem mecanizar a produção, como os que trabalham com as folhas de tabaco”, enfatiza.
Outro estado, mesma tragédia

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