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terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Perdão aos homicidas

Terça, 7 de fevereiro de 2012, 08h02

Rui Daher
De São Paulo

Especialista defende que tecnologias sustentáveis sejam aplicadas nas lavouras com doses equilibradas de agroquímicos (Foto:Getty Images)

Convivem em nosso rincão seres estranhos. Como aqueles que em matéria da "Veja" (04/01/12) se mostraram contrariados com o uso da palavra agrotóxico para designar inseticidas, fungicidas, herbicidas e outros sinistros portadores do sufixo cida, que vem do latim e significa matar.
Olímpicos em seus cargos e defensorias, esses senhores preferem o termo defensivo agrícola. E por que não? Basta que nos permitam incorporar ao grupo os homicidas como defensores da vida humana.
Soube das distorções da matéria e do parti pris que ela toma através da resposta dada à revista pela Associação Brasileira de Agroecologia e divulgada na rede digital.
Onde mais? Na mídia tradicional que não seria. Nela, ouvir o oposto serve quando usado a favor do que interessa ou pensa a publicação.
Este espaço já se ocupou algumas vezes do assunto e acredita estarem os leitores fartos de saber dos índices de agrotóxicos encontrados em amostragens da ANVISA, dos princípios proibidos mundo afora aqui vendidos livremente, e das patologias causadas pelo uso intensivo desses produtos.
Se alguém quiser conhecer o outro lado, coisa que "Veja" não fez, consulte o sítio www.aba-agroecologia.org.br.
A preocupação aqui é com o ponto em que deságuam as opiniões dos amigos ouvintes sempre que a controvérsia aparece. Tiro e queda: a fome mundial. Confiram em e-mails, comentários e tuitadas.
Há um raciocínio raso calcado em parte na forma como a mídia trata o assunto. E vem a pergunta: como vocês pensam em alimentar os bilhões de habitantes do planeta com o uso de insumos orgânicos?
Preso às figuras dos índios Tonto e Jerônimo, só me resta retrucar: "Nós quem, caras-pálidas?"
Quando se fala nos excessos do uso de agrotóxicos no Brasil, recordes mundiais de vendas da indústria agroquímica, poder lobista que faz perdurar no mercado produtos prejudiciais à saúde, o que se pretende é alertar os agricultores para outras formas de manejo e produtos capazes de em certas circunstâncias diminuírem o uso dos cidas e reduzirem o custo da produção por hectare.
Que não se imagine, pois, a pretensão de produzir o que se precisa sem aplicar fertilizantes químicos e agrotóxicos. Apenas, esses consumos poderiam ser muito menores se consorciados com produtos biológicos e de extração mineral e orgânica.
E olhem que estou sendo ameno, pois no campo não é difícil constatar produtividades semelhantes às obtidas com tratamentos convencionais usando-se apenas meios nutricionais e fitossanitários pouco ofensivos ao ambiente.
São tecnologias sustentáveis, pesquisadas em centros de excelência, que aplicadas com doses equilibradas de agroquímicos podem, inclusive, aumentar a produtividade das lavouras.
Quanto cresceu a produção de grãos com mais preservação e economia, em 30 anos, desde que iniciou o hoje consagrado sistema de plantio direto? Na época, perguntava-se: mas sem arar, sem mecanizar? Sim, hoje mais de 60% das áreas plantadas com culturas anuais seguem a prática.
Em dez anos, essa mesma proporção se reproduzirá em cultivos do país que usem produtos biológicos, orgânicos e sistemas integrados de lavoura, pecuária e floresta.
O que não adianta é deixar tudo como está, potencializando efeitos negativos para ambiente, saúde e bolso, em nome de uma fome mundial que, com ou sem agrotóxicos, continua assolando as mesmas populações de sempre.
Mais: não existissem soluções melhores, a empresa líder mundial na venda de agrotóxicos não estaria lançando um fertilizante foliar que tem entre seus principais apelos as presenças de aminoácidos e carbono orgânico.
Bobos é que não são.

Rui Daher é administrador de empresas, consultor da Biocampo Desenvolvimento Agrícola.

Fale com Rui Daher: rui_daher@terra.com.br

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