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sábado, 26 de novembro de 2011

Químico proibido em mamadeiras é encontrado em alimentos enlatados



Novos testes da Breast Cancer Fund comprovam a presença do bisfenol A na maioria das latas de comida e bebida
A Breast Cancer Fund, entidade americana defensora da redução de fatores ambientais que contribuem para o desenvolvimento do câncer de mama, calculou o nível de bisfenol A (BPA) que poderia ser encontrado em um jantar de Ação de Graças feito em sua maior parte com enlatados, e os resultados não são bons para quem está preocupado com a exposição ao químico.
Em inúmeros estudos com animais e também em alguns estudos com humanos, o bisfenol A (BPA) foi associado a problemas de saúde como câncer de mama e de próstata, infertilidade, puberdade precoce, diabetes, obesidade e problemas cardíacos. O químico é utilizado no revestimento interno de latas e em embalagens de plásticos de policarbonato. Sua utilização em mamadeiras já foi proibida no Brasil, União Europeia, China, Malásia, Costa Rica e em 11 estados americanos, mas o bisfenol ainda está presente em diversos tipos de embalagens de comida e bebida.
Os testes realizados pela Breast Cancer Fund revelam que quase todos enlatados testados apresentaram níveis de BPA comparáveis aos níveis de estudos associados a doenças. Os resultados também revelaram que os níveis do BPA variam, inclusive considerando o mesmo produto de uma só empresa. Os níveis de BPA em creme de milho da marca Del Monte, por exemplo, variaram de insignificantes até 221 partes por bilhão (ppb). E o do molho de peru da marca Campbell variou de 5 a 125 ppb. De acordo com os cientistas da Breast Cancer Fund, essas variações ocorrem pelas diferenças no processamento, armazenagem e condições de transporte.
O Breast Cancer Fund testou os seguintes produtos:
- Sopa cremosa de cogumelos - Campbell
- Molho de Peru - Campbell
- Leite Evaporado (leite condensado sem açúcar) - Nestlé
- Creme de Milho - Del Monte
- Vagem - General Mills
- Creme de abóbora - Nestlé
- Molho de Cranberry - Ocean Spray
Nos Estados Unidos, esses produtos são muito usados na preparação do jantar de Ação de Graças. Jeanne Rixxo, presidente do Breast Cancer Fund, disse que “preparar um jantar com esses produtos pode expor os consumidores a um preocupante nível de BPA”. O Breast Cancer Fund enviou 28 enlatados (quatro latas de cada produto) para o Laboratório Anresco, um laboratório independente de São Francisco.
Para reduzir a exposição ao BPA especialistas fazem as seguintes recomendações:
- Compre alimentos frescos sempre que possível.
- Considere alternativas aos alimentos e bebidas enlatados.
- Use recipientes de vidro quando for aquecer alimentos no microondas.
Com informações de:
Consumer Reports – 15/11/2011
Food Safety News – 17/11/2011
Breast Cancer Fund
Fonte: O Tao do Consumo, 22/11/2011.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Agrotóxicos são a segunda maior fonte de contaminação da água

Publicado em novembro 11, 2011 por

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou no último dia 19 de outubro, um estudo sobre o saneamento básico no país. Nele, um fato soa um tanto quanto curioso: constata que os resíduos de agrotóxicos são a segunda principal fonte de contaminação das águas brasileiras, atrás apenas do esgoto sanitário.
A análise apresenta ainda que, com 6,24%, os agrotóxicos ficaram a frente dos despejos industriais e da atividade mineradora como origens de contaminação. O uso indiscriminado dessas substâncias acaba afetando tanto a vida quanto a saúde da população.
A doutora Silvia Brandalise, presidente do Centro Boldrini, especializado em câncer infantil, localizado em Campinas e professora de Ciências Médicas da Unicamp, diz que por ser um composto derivado de benzeno, o agrotóxico é extremamente prejudicial à saúde, podendo disseminar o câncer. “O agrotóxico, a maior parte deles, tem como matéria-prima básica os derivados de benzeno. Os derivados de benzeno têm como ação importante a quebra de cromátides, que são elementos que compõem o cromossoma. Uma exposição aos derivados de benzeno ou à radiação, você consegue fazer uma mutação. Sendo assim, o câncer e outras doenças, que são mutações sucessivas, vão acontecendo na célula cronicamente exposta a esses produtos”, explica.
A utilização dos agrotóxicos em larga escala na agricultura chegou a tal ponto que é preciso parar com o despejo desses produtos, segundo a coordenadora do Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas (Sinitox), Rosany Bochner. “A verdade é que chegamos a um limite. Não tem mais como falarmos apenas em diminuir ou usar outro tipo. É preciso acabar com o uso. Acreditamos que é necessário até mudar a maneira de como o Brasil lida com a produção de alimentos. Seria uma revolução maior”, afirma a coordenadora.
Outro grande problema apontado por Rosany é a questão dos alimentos geneticamente modificados, pelo fato de utilizarem “muito agrotóxico para o seu cultivo, em especial a soja. Com isso, toda a soja carrega uma quantidade enorme de produtos químicos na sua composição. Sem contar que os produtores que não utilizam os transgênicos, mas possuem agricultores vizinhos que os produzem, acabam por ter suas plantações também contaminadas”, explica.
Ainda segundo a coordenadora, o Brasil se habituou a utilizar a monocultura como forma predominante nas plantações, o que força os agricultores a aplicar os agrotóxicos.
“O que é proposto por especialistas de produção é a agroecologia. Entretanto, esse conceito iria mexer em uma questão cultural, já que hoje você tem todo mundo comendo a mesma coisa o tempo todo. Não há mais a produção de uma fruta, por exemplo, em determinada época do ano, e sim, a produção dela o ano inteiro, por conta da manipulação”, acrescenta Rosany.
Saúde
Chamados pela indústria de “defensivos agrícolas”, o uso de pesticidas ainda podem provocar danos na medula, a ponto de um transplante se fazer necessário. “O defensivo agrícola é um veneno para o homem, pois ele altera o cromossomo da célula. Uma das ações que ele faz no ser humano é diminuir a produção dos glóbulos brancos. Com a queda de glóbulos brancos, a imunidade cai. Isso provoca uma aplasia de medula, quer dizer, a medula óssea não produz mais os elementos do sangue. Nesse cenário, que é uma destruição global da medula óssea, só o transplante de medula pode resolver”, relata Brandalise.
Diversos estudos já comprovaram que foi detectada uma quantidade significativa de agrotóxicos em águas da chuva. Na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), existem teses que já provaram que essas toxinas foram encontradas no leite materno, o que prejudica na formação do bebê. Tanto para médicos, quanto para especialistas, a fiscalização das leis que regulamentam o uso dos agrotóxicos, e até a extinção deles, é essencial para que a saúde da população seja a prioridade na hora de se produzir um alimento.
Todavia, mesmo as legislações já vigentes que regulam a utilização desses produtos são pouco respeitadas pelo setor. “Existe legislação que proíbe a pulverização com veneno uma árvore que já tem frutos, por exemplo. Mas na prática se vê aviões pulverizando pés de banana, de laranja, etc., já com o fruto na árvore. Ou seja, a quantidade de derivado de benzeno que vai ficar nessa fruta é enorme”, salienta a doutora.
Além do fato de existirem diversos “produtos que estão com a quantidade muito maior de agrotóxico do que seria permitida pela Vigilância Sanitária. Nisso, os consumidores ingerem uma hortaliça ou uma verdura com um altíssimo teor”, enfatiza.
Intimidação
No entanto, apesar de já existirem diversos estudos que relacionam a contaminação da água por venenos agrícolas, Rosany destaca a dificuldade que há em associar causa e efeito nessa questão.
“O Sinitox registrava apenas intoxicações agudas. Contudo, com a contaminação da água, pode-se levar uma população a desenvolver uma desintoxicação que será crônica. O sistema de saúde não irá registrar essa intoxicação como causada pelos agrotóxicos, pois ao longo do tempo é que irão aparecer os problemas. Verificar esse nexo causal, provar que existe essa relação, é muito difícil”, explica.
“É nessa incerteza que as indústrias se beneficiam, porque quando se vai fazer qualquer tipo de denúncia, ela exige que tenha uma comprovação de nexo causal. Como ainda não se tem essa relação, essas empresas acabam entrando na justiça contra quem declarou qualquer coisa, intimidando as pessoas de fazerem qualquer tipo de declaração. E por essa pressão, as pessoas acabam não falando sobre o assunto”, conclui.
Por Leandro Carrasco, do MAB-Movimento dos Atingidos por Barragens.
EcoDebate, 11/11/2011

domingo, 20 de novembro de 2011

Política Nacional de fitoterápicos e formulário da farmacopéia brasileira

http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/politica_nacional_fitoterapicos.pdf

http://www.anvisa.gov.br/farmacopeiabrasileira/conteudo/Formulario_de_Fitoterapicos_da_Farmacopeia_Brasileira.pdf

Entrevista com Armenio Khatounian

O campo revelado

 por Carolina Derivi

 
Carlos Armenio Khatounian é engenheiro agrônomo, professor doutor da Escola de Agricultura Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo, e ph.D em agricultura sustentável pela Iowa State University for Science and Technology
Carlos Armenio Khatounian é engenheiro agrônomo, professor doutor da Escola de Agricultura Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo, e ph.D em agricultura sustentável pela Iowa State University for Science and Technology.

Seja na escala planetária, seja naquela da nossa vida cotidiana, velhos hábitos são difíceis de contestar. Depois de estabelecido, um modus operandi pode se transformar numa espécie de transe, em que qualquer variação da norma se assemelha a uma excentricidade. E é a nos acordar desse transe, quando a o assunto é a sustentabilidade no campo, que se dedica o professor da Esalq-USP, Carlos Armenio Khatounian.
Um dos maiores nomes da agroecologia no Brasil, Khatounian contesta a ideia de que só a agricultura empresarial é eficiente e bem-sucedida. Lembra que as propriedades menores e de trabalho familiar ainda são predominantes no mundo, com grande capacidade de adaptação aos soluços da economia e ao aproveitamento racional dos recursos naturais.
Mais que espaço e oportunidade, há necessidade de uma agricultura de base ecológica, especialmente em tempos de superpopulação, em que a segurança alimentar ascende ao topo dos problemas globais. No entanto, diz o professor, nenhuma inovação no âmbito das lavouras dará conta do recado se a humanidade não reformular, urgentemente, os padrões de sua própria dieta.
Existe um receituário de agricultura sustentável capaz de alimentar o mundo todo?
Vou começar numa perspectiva histórica mais longa, para ser mais preciso. A nossa aventura enquanto espécie biológica começa há 150 mil anos atrás. Nessa trajetória, nós fomos sobretudo caçadores coletores. Só passamos a ser agricultores, em alguns lugares do mundo, entre 10 mil e 12 mil anos atrás. Então, a agricultura é uma maneira relativamente recente de nos relacionarmos com o meio ambiente.
Os vestígios da agricultura mais antiga revelam um sistema de derruba-e-queima. Muito antes de começarem as civilizações antigas, que desenvolveram a escrita, fizemos 5 mil anos pelo menos de derruba-e-queima. E foi só quando as áreas disponíveis nessas regiões tinham sido completamente degradadas é que nós passamos para a beira do rio. Para uma civilização primitiva, era praticamente impossível enfrentar a força de um rio, não tinha controle das cheias, que podiam levar todo um ano de trabalho.
Acontece que, nessas regiões onde surgiu essa agricultura hidráulica, a floresta não se recompunha. Então a agricultura ia deixando atrás de si um deserto. E, quando chegou o momento que não tinha mais área para fazer derruba-e-queima, eles não tiveram outra saída que não fosse descer para a beira dos rios. Então, o início da História já é marcado por uma crise ambiental derivada da agricultura, uma crise de desmatamento e desertificação.
O seu ponto é que a agricultura nasceu acoplada à degradação ambiental e permanecerá assim?
Então, o “permanecerá assim” é que é a pergunta. Agricultura e degradação ambiental caminharam juntas na História, inclusive nos países que hoje nós chamamos de desenvolvidos. É importante falar disso, porque existe uma ideia, mais ou menos disseminada, de que a agricultura que nós fazíamos 100 anos atrás era sustentável. Mas isso não é verdadeiro. Na verdade, a agricultura que nós estamos fazendo desde 10 mil anos é uma agricultura insustentável.
Vou colocar a pergunta de outra maneira: é verdade que só a grande escala e a monocultura são eficientes o bastante para alimentar um cenário de 9 bilhões de pessoas em 2050?
Essa pergunta é bem mais fácil de responder. Se você olhar a história da agricultura, o que predomina é a agricultura familiar. No livro História das Agriculturas no Mundo (de Mazoyer e Laurence Roudart), o professor da Universidade de Paris, Marcel Mazoyer, quantificou o número de agricultores do começo ao fim dos Novecentos. Em 100 anos, o número de agricultores na Europa foi reduzido a 10%. De cada 100 propriedades, apenas 10 restaram no ano 2000. No entanto, apesar de ter havido uma diminuição no número de propriedades, essa agricultura é essencialmente familiar. Nos Estados Unidos, e no Brasil também.
Quando a gente fala de Paraná, você pensa em agricultura familiar predominante. Mas, quando se fala em Mato Grosso, você pensa que é agricultura empresarial. Eu achei que isso seria parte da nossa conversa e levantei os dados do Censo. No Paraná, coisa de 75% a 80% das propriedades são tocadas com mão de obra familiar. E no Mato Grosso? Quanto você acha que seria? Dá um chute.
Quarenta por cento?
Vou te dar os dados do Censo: 75%. Isso porque as grandes unidades, com regime de mão de obra capitalista, são altamente instáveis. Nesse livro que eu menciono, o autor se propõe a seguinte pergunta: por que a agricultura europeia neste último século diminuiu em número, mas ao mesmo tempo continuou essencialmente familiar no uso da força de trabalho?
A resposta é relativamente simples. A agricultura passa por altos e baixos, como qualquer setor econômico, mas tem ciclos de preços mais ou menos previsíveis. Imagine que estamos falando de café. O café, hoje, está numa fase de preço alto, e nessa fase você consegue manter uma relação trabalhista de assalariamento sem problemas. Mas nós podemos voltar daqui a dois anos a um preço de café, não na faixa dos R$ 500, mas na faixa dos R$ 250, que é um valor histórico realista. Quando bater nesses R$ 250, digamos que vai sobrar um limite de R$ 50 por saca para a família sobreviver. Ela não vai ganhar muito nesse ano, mas vai manter o negócio, enquanto aquele sistema empresarial não tem como comprimir despesas. Não tem como dizer para o empregado que ele não vai receber 13o salário, porque o café baixou de preço. Na propriedade familiar, se o pessoal conseguir manter o negócio e pagar as despesas, mesmo que não sobre nada, está no positivo.
Por isso os empreendimentos de agricultura familiar são mais numerosos?
Por isso a agricultura familiar é uma atividade que reúne muito mais sustentabilidade do que a empresarial.
Inclusive econômica.
Sim. Esse é um ponto pacífico. A agricultura empresarial depende de preços mais elevados para se manter viva. E não é uma observação para um único país. É a observação do conjunto dos países hoje. Agora, isso não quer dizer que qualquer esquema de agricultura familiar seja melhor que qualquer esquema de agricultura empresarial. O modelo familiar num padrão tecnológico muito baixo vai ter mais dificuldade.
Olhando a história da Europa, podemos refletir sobre a nossa. Nove em cada dez agricultores desapareceram. Esses foram os menos eficientes nessa estrutura de agricultura familiar. Menos eficientes porque ocuparam áreas marginais, com menor potencial de produção, ou porque não conseguiam uma reserva para aplicar na tecnologia. Enfim, as razões mais diversas. E esses acabam sendo assimilados pelos mais eficientes. Isso remete para uma grande questão, nas políticas públicas do Brasil. A gente deve estimular a agricultura familiar a se tornar mais eficiente enquanto tal, ou a gente deve estimular a agricultura empresarial?
O senhor tem essa resposta?
Não sou eu que tenho a resposta, é a História que dá. A História diz assim: é mais confiável aplicar na agricultura familiar.
Porque é mais adaptável, mais resiliente?
Sim. O Oeste do Paraná é uma agricultura modernizada e intensiva. Se você for para aquela região, você vai olhar e pensar: “Isso não é agricultura familiar”. Não é aquilo que você imagina, o sujeito passando fome e pedindo ajuda do governo. É uma agricultura familiar mais capitalizada, mais tecnificada, capaz de se desenvolver e passar por crises que a agricultura empresarial não consegue.
A origem da confusão que leva à pergunta que você fez – o que é mais sustentável, a agricultura empresarial ou a agricultura familiar? – é que normalmente nós associamos modernização ao modelo empresarial e o modelo familiar a um processo tecnológico aparentemente mais rudimentar. Mas os dados do Censo não embasam essa perspectiva. O Censo mostra que o grosso da agricultura brasileira é familiar, inclusive nos estados que a gente imagina que são da agricultura empresarial.
Então, quando se fala em agricultura sustentável, a questão é menos a escala e mais a técnica aplicada?
São as duas coisas. Essa pergunta poderia ser desmembrada as- sim: é possível fazer agricultura ambientalmente melhor em grande escala, ou isso tem de ser na escala dos pequenos? De novo, eu vou responder não o que eu acho, mas o que o mundo me apresenta. Se você for olhar agricultura de base ecológica, você vai encontrar desde propriedades medidas em vários milhares de hectares até propriedades medidas em poucos hectares.
A maior iniciativa de produção de açúcar orgânico no mundo é aqui no estado de São Paulo, em Sertãozinho, a Usina São Francis- co (da empresa Native). Se não me engano, tem 13 mil hectares de cana orgânica. No Pará, a Agropalma tem 4 mil e poucos hectares de dendê orgânico. E assim há outros exemplos. Não são muitos, porque as propriedades destes tamanhos também são menos nume- rosas. Mas esses exemplos mostram que é possível fazer agricultura tecnologicamente melhor, no sentido do meio ambiente, em escala ampliada. Não tem nenhuma incompatibilidade.
Agora, para cada cultura existem os problemas específicos. Para algumas culturas nós dispomos de um estoque tecnológico que permite fazer isso bem. Pra outras, o estoque tecnológico não é suficiente para ampliação de escala.
Tem outra coisa: na hora em que você amplia a escala, surgem problemas de administração. Uma área agrícola nunca é homogê- nea. Imagine um agricultor que tem uma terra mais seca em cima do morro, depois vem uma mais ou menos úmida, depois outra, abaixo, mais sombreada. Um agricultor pequeno consegue aplicar em cada pedaço desse terreno uma cultura mais adequada. Na parte mais sombreada e mais úmida, ele poderia plantar inhame. Na parte intermediária, feijão, milho. E, na parte mais seca, onde bate mais sol, talvez pudesse fazer um reflorestamento com eucalipto.
Em um sítio de 5 ou 10 hectares é lógico fazer isso. O agricultor tem condição de administrar e tem mais rendimento se fizer isso. Mas, se nós estivermos dentro de uma propriedade de 5 mil hec- tares de uma produtora de polpa de celulose, aí é impossível para ela, dada a sua dimensão, fazer essa administração de microssítios. Essa empresa vai plantar eucalipto em tudo, por uma necessidade de simplificação administrativa. Por conta disso, as propriedades familiares que trabalham em menor escala têm mais possibilidade administrativa de fazer um uso mais eficiente dos recursos naturais. Eu gostaria que houvesse centenas de usinas como a São Francisco no Brasil, em vez de ser uma só. Mas é mais fácil fazer isso numa escala de agricultura familiar.
Falta conhecimento, pesquisa?
A pesquisa agrícola organizada é um fato de 100 anos na histó- ria da humanidade. Os conhecimentos para utilização de adubos químicos estavam bem formatados em meados dos Oitocentos, mas até o fim daquele século praticamente não foram utilizados. Isso é um fenômeno do século XX. E, nesses 100 anos, o grosso da pesquisa agrícola foi direcionado aos insumos químicos.
A pesquisa de foco mais biológico tem uns 30 anos. Quando eu era estudante desta escola aqui (Esalq-USP), se você falasse de controle biológico de pragas, isso era filosofia. Um professor chegou a escrever isso numa prova minha, “o senhor é um filósofo”. E hoje não existe praticamente nenhuma cultura no Brasil sem alguma técnica de controle biológico de pragas.
Mas isso foi fruto de investigação. A cada dia estão surgindo coisas novas. Hoje você encontra insumos para uma série de coisas. Hoje tem um fungo, chamado “tricodermo”, que é comercializado para controlar doenças de raiz de planta, em lugar de aplicar um fungicida. Essas tecnologias vêm aumentando muito, mas elas ainda são muito poucas em face do tamanho do desafio.
Parece que o senhor está dizendo que, a depender de empenho em P&D, no futuro seria possível produzir todos os alimentos livres de agrotóxicos…

Sim e não. Se você for comparar hoje o rendimento quilos-por-hectare de culturas orgânicas e tradicionais, é quase o mesmo. Em alguns casos colhe-se mais, em outros um pouco menos. Em um levantamento feito nos Estados Unidos, uns cinco anos atrás, mostrou-se que a diferença era 5% a menos para os cultivos orgâni- cos, em média. O que é surpreendente, dada a falta de investigação.
Agora vamos voltar à questão de alimentos versus população. A FAO faz previsões de que nós vamos chegar em meados do século ao redor de 9 bilhões de habitantes. Nós já passamos dos 7. Fazendo as contas, na virada dos anos 2030 para os 2040, seria necessário dobrar a produção de grãos para alimentar essa população. Acontece que nós não temos recursos – nem de solo, nem de água, nem de energia – para duplicar a produção.
Simplesmente esses recursos não existem. Só tem um continente com grande possibilidade de expansão, que é a América do Sul, sobretudo no Brasil. Na Europa não tem, na América do Norte não tem, e na Ásia tem muito pouco. Quase toda a África, ao Sul do Saara, é semiárida. Para fazer produção nessas regiões, seria preciso irrigar. Podemos fazer um poço profundo e retirar água dali, ideia levada a cabo na China, na Índia e nos Estados Unidos, que são os três países que mais irrigam em regiões de semiárido.
Acontece o seguinte: a água que esses países estão extraindo do solo acumulou-se em tempos geológico passados. No tempo presente, chove pouco, então os aquíferos não são alimentados. O resultado é que a água é como um poço de petróleo. Vai-se esgotar.
E isso já está acontecendo nesses três países. Não tem como. E a agricultura, à medida que se tecnifica, consome mais e mais energia do petróleo. E, se você tem hoje qualquer flutuação no preço do petróleo, também há uma flutuação imediata nos preços dos alimentos. E os fertilizantes nitrogenados são totalmente dependentes do petróleo.
Fora todo o consumo energético com transporte, armazenamento…
Fora tudo isso. Nós podemos, num esforço, ampliar momentaneamente a produção, mas não temos como fazer esse salto enorme sustentavelmente. Pra piorar, estamos falando de incorporação de áreas agrícolas, mas o mundo também perde áreas agricultáveis anualmente. Se não me falha a memória, é da ordem de 5 milhões de hectares por ano. Não apenas temos capacidade limitada de avançar, mas estamos testemunhando a perda das áreas que antes eram utilizadas.
E por quê?
Por causa da sanilização e da desertificação. Como consequência da agricultura
Como consequência da agricultura convencional?
Sim.
Então, quais são as opções de que o mundo dispõe? Seria preciso rever o consumo de alimentos de origem animal, que puxa o consumo de água e grãos?
Então, este é o outro ponto. A Dinamarca consumia, na virada do milênio, na ordem de 1.400, 1.500 quilos de grãos por habitante ao ano. Isso significa quase 3 quilos de grão por dia. Não tem jeito de uma pessoa comer isso. Aqui no Brasil, a gente come cerca de 150 gramas de arroz por dia, comendo bastante. Essa produção está embutida no consumo animal.
Os dados médios da produção animal dos Estados Unidos – semelhante ao Brasil – mostram que para 1 quilo de frango são necessários mais ou menos 11 quilos de grãos. E, para 1 quilo de porco, são 22 quilos de grãos. O pessoal da indústria fala que gasta, em média, 2 quilos de ração para fazer 1 quilo de frango. Mas isso é o animal vivo. Você não come pena, bico, osso, tripa. Outra coisa: a ração tem 12% de umidade. E a carne tem 80%. A comparação correta, então, seria se fosse eliminada a água. Quando você elimina
a água, 1 quilo de matéria seca da parte comestível do frango custa 11 quilos de ração. É um custo absurdamente elevado.
Com esse padrão alimentar não dá para saciar o mundo?
De jeito nenhum. Nem com transgênico, nem com convencional, nem com orgânico. O resultado é que, queiramos ou não, nós seremos obrigados a mudar a nossa dieta.
Por isso o senhor respondeu “sim e não”.
Exato. A primeira parte era sim, é possível manter um nível bom de produtividade com a agricultura de base ecológica. Mas não tem jeito, nós vamos ter que mudar as nossas dietas. A pergunta que se pode colocar é quando isso acontecerá e se a humanidade vai enfrentar isso com guerra ou de uma forma discutida, negociada.
Uma guerra da carne?
Não é bem isso. Imagine que você está num churrasco. Tem lá uma saladinha de alface, tem vinagrete, tem pão, e alguém tirou um pedaço de picanha da churrasqueira e começou a fatiar. Para onde vai o pessoal? Para a picanha. Por que é que nós gostamos mais de carne? Se você olhar os problemas de saúde humana que nós enfrentamos hoje, estão bem ligados ao hábito alimentar. O consenso dos nutricionistas é o seguinte: estamos comendo muito produto de origem animal, muita gordura, muito açúcar e muito sal. Porque nós comemos mais essas coisas? A resposta é: porque é mais gostoso. Porque, evolutivamente, a gente tinha que desenvolver um pagamento fisiológico para uma necessidade da espécie.
Um pé de mandioca não corre. Um pé de tomate também não corre. Mas bicho corre. Para nós, era importante consumir carne, em determinado momento da nossa história evolutiva, porque a carne é um alimento mais completo do ponto de vista protéico. Mas para ter carne era preciso se esforçar muito mais. Então o pagamento fisiológico era um prazer maior. A mesma coisa vale para a gordura, para o sal e para o açúcar. Era muito menos disponível. Até 50 anos atrás, quase ninguém enchia a barriga de carne ou se empanturrava de doce.
Agora, imagine que você está em qualquer país democrático e um governante, entendendo os problemas que são advindos do consumo crescente de carne, decide impor restrições ao consumo, por impostos. Quando ele se elege de novo? Nunca. Em nenhum país democrático essa proposta passaria. Os chineses, há 40 anos, consumiam quatro quilos de produtos de origem animal ao ano por cabeça. E hoje estão consumindo na ordem de 75, de 80 quilos. Quem vai falar para os chineses que não devem consumir carne? Um inglês, que já consome quase 150 quilos? Nenhum país, ou extrato social, tem reserva moral para impedir os outros.
Não tem saída para esse impasse?
Tem um grupo na Inglaterra que chegou à conclusão de que a única maneira de resolver esse problema é com o conhecimento do problema, com a redução voluntária do consumo de carne. É o Eat Less Meat.
Se chegar num momento em que determinado povo não consegue ter acesso a carne e outros continuam tendo acesso a quantidades maiores, você pode esperar que isso estoure na forma de conflito. Esse conflito pode ser, por exemplo, por causa de água. Para produzir grãos, para então converter em carne, você precisa de muita água. Em média, para 1 quilo de grão, você precisa entre 500 e mil litros de água. Porque as plantas também transpiram, não fazem fotossíntese sem transpiração.
Tudo isso não é só catástrofe. Eu acho que tem luz no fim do túnel, e bastante luz. Porque hoje a percepção é a seguinte: a mesma dieta que faz bem para o meio ambiente é a dieta que faz bem para a nossa saúde. Cereais integrais, um pouco de leguminosas, hortaliças e frutas, quantidades moderadas de produtos de origem animal, e quantidades limitadas de açúcar e de álcool. Essa dieta é perfeitamente compatível com uma situação de produção orgânica. Então, o desafio que se coloca é o seguinte: nós não resolvemos a segurança alimentar sem mudar os hábitos. E, ao resolver a questão alimentar, nós resolveremos também as questões de saúde.
Redirecionar a nossa dieta para produtos locais também faz parte dessa solução?
Claro. Vamos imaginar que a gente vai ficar nessa dieta recomendada pelos nutricionistas. Se o seu cereal integral for aveia produzida no Canadá e trigo produzido na Argentina, se as sua leguminosas são grão-de-bico produzido no México e lentilha no Chile, se as suas frutas são peras importada de Portugal… Bom, você já viu onde eu estou querendo chegar. Pode até ser orgânico, mas o gasto energético de transporte com isso é absurdo.
Tem toda a poluição da siderurgia para fazer esses meios de transporte. E comida humana é essencialmente perecível. Algun cereais, menos. Mas para frutas e hortaliças, a escala é de dias, às vezes nem isso. Exige refrigeração, fungicidas e bactericidas para que esse transporte de longa distância se realize. Ao passo que, se você faz as coisas em esquema local, tudo isso se resolve com mais facilidade. Se você comer hortaliças da região, frutas da época, isso vai mudando. Esse é o padrão da cultura orgânica de base local.
Mas isso envolve também o que se chama de “alimentos da terra”, propícios para a realidade ecológica de cada local?
Sim, são aqueles que naturalmente crescem melhor em determinado local. Uma cultura própria da região pede menos adubo e pode sair sem nenhum veneno. Porque essa cultura está adaptada àquela condição. Para produzir 20 toneladas de mandioca aqui no Brasil, o que a gente precisa? Nada. Precisa de trabalho. Mas, de insumos externos, nada. Então, para o ajuste da composição da dieta ao que é localmente possível de produzir, este é um passo fundamental. Mas isso só acontece quando a gente gosta de ser como a gente é.
No artigo “Breve história ambiental e sociocultural da alimentação no Brasil”, o senhor argumenta que a maior perda com a inserção de novas variedades agrícolas por aqui foi cultural…
É. E o lugar onde essa perda é mais forte no Brasil é a cidade de São Paulo. Eu sou paulistano. A cidade de São Paulo é o lugar em que os imigrantes recentes fizeram todo o esforço para negar as influências tropicais, a influência negra e nordestina, que de alguma forma era identificada como cultural e socialmente inferior.
Quando eu era criança, eu ia para o Nordeste e sentia falta de pão. Porque sou de origem armênia e lá o cereal de base é o trigo, tudo se come com pão. Mas no Nordeste o pessoal comia tapioca, comia inhame com manteiga, comia cuscuz de milho, bolo de mandioca. Se nós paulistas quisermos uma dieta tropical mais adaptada, teríamos que olhar mais para o vizinho.
Mas hoje, se você for a uma capital nordestina qualquer, o pessoal come pão com manteiga no café da manhã. O trigo foi-se introduzindo fortemente. E continua avançando. O Brasil é o maior importador de trigo. O nosso consumo é da ordem de 8 milhões de toneladas, e só produzimos entre 2 milhões e 3 milhões.
Se a globalização é irreversível, então esse nosso apetite por alimentos do mundo todo que a gente descobriu e passou a gostar não é também irreversível?

Eu acho que é irreversível. Mas a questão essencial é quantitativa. Quando eu como determinados produtos, eu me remeto a  experiências minhas de vida. Quando digo que a gente precisa de uma readaptação ao biorregionalismo, não quero dizer que a gente tem de negar a diversidade das nossas origens. Mas que a gente tem de colocar essas necessidades culturais dentro da perspectiva  da sustentabilidade.
A interação entre povos e culturas é desejável e o comércio é uma forma importante de interagir. Então, fazer uma macarronada uma vez a cada mês é uma coisa. Mas comer uma macarronada três vezes por semana é outra coisa. E comer todos os dias de manhã o  pão de trigo que a gente tem que trazer de fora também. Mas isso é outra história. Se, nesta conversa, você conseguir quebrar a mentira, o mito de que a eficiência está ligada à agricultura empresarial e de que a agricultura de sucesso no mundo é a empresarial, acho que já está de bom tamanho.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Aumenta incidência de câncer e bebês malformados em regiões de soja transgênica

 
 8 de novembro de 2011

Por quase 10 anos, os moradores de áreas rurais e periurbanas da Argentina onde a agricultura industrial vem se expandido têm recorrido a autoridades políticas e aos tribunais de justiça, bem como protestado diante do público, por causa dos problemas de saúde que suas comunidades vêm sofrendo em função da pulverização de agrotóxicos usados nas diferentes culturas agrícolas.

Nesses locais, chama a atenção o aumento do número de casos de câncer, de nascimento de bebês com malformações e de problemas reprodutivos e hormonais desde que a pulverização sistemática de agrotóxicos se generalizou. As reclamações das cidades-pulverizadas têm sido confirmadas por equipes médicas que atuam nessas regiões, mas as respostas do sistema público de saúde e o envolvimento das universidades públicas com o problema têm sido escassos e limitados.

Buscando promover um espaço para a análise acadêmica e a reflexão científica sobre o estado da saúde em cidades-pulverizadas, bem como ouvir e apoiar os profissionais de saúde que vêm denunciando estes problemas, a Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nacional de Córdoba promoveu em agosto deste ano o Primeiro Encontro Nacional de Médicos em Cidades-Pulverizadas. Médicos, outras equipes de saúde e pesquisadores de diferentes disciplinas atuando no país foram chamados a apresentar suas experiências, dados, propostas e trabalhos científicos. O evento reuniu mais de 160 participantes de dez estados e de seis universidades federais.

O relatório do encontro, apresentando os principais resultados dessas pesquisas, acaba de ser publicado.

Os relatórios e testemunhos apresentados pelos médicos presentes confirmam as observações clínicas, atestando uma série de doenças e problemas de saúde em pessoas expostas à pulverização. Embora as manifestações de intoxicação aguda (aquela que se manifesta poucas horas após uma exposição elevada a produtos muito tóxicos) representem a maior parte das queixas dos pacientes, o que mais alarma os médicos na maioria das cidades-pulverizadas são duas constatações: primeiro, o número de abortos espontâneos e de nascimento de bebês malformados é significativamente maior nas cidades-pulverizadas do que na média da população.
Segundo, nota-se também um aumento na incidência de câncer em crianças e adultos, além de outras doenças sérias como a Púrpura de Henoch-Schönlein (inflamação dos vasos sanguíneos), doenças hepáticas e neurológicas. Os médicos chamaram a atenção para o fato de que, em geral, vêm trabalhando nas mesmas comunidades por mais de 25 anos, e que as doenças observadas nos últimos anos são incomuns e estritamente relacionadas à aplicação sistemática de agrotóxicos.

Um exemplo contundente são os dados apresentados pela Dra. Ana Lía Otaño, representante do Ministério da Saúde no estado do Chaco. O relatório trazido por ela realça claramente o aumento dos casos de bebês malformados no nível estadual, de acordo com os números da principal unidade de saúde pública do estado, a Unidade Neonatal do Hospital J.C. Perrando, na cidade de Resistencia (capital do estado), que passaram de 46 em 1997 para 186 em 2008 (um aumento de 19,1/10 mil nascidos vivos para 85,3/10 mil nascidos vivos).

Os números do Hospital de Resistencia convergem com os dados apresentados pelo Dr. Horacio Lucero, diretor do Laboratório de Biologia Molecular do Instituto Regional de Medicina da Universidade Nacional do Nordeste, que há mais de dez anos vem estudando e registrando a relação dos problemas de saúde acima descritos com a exposição residencial (por vizinhança) aos agrotóxicos no estado do Chaco. O Dr. Lucero acrescenta que, nos últimos anos, o plantio de soja por grandes conglomerados agrícolas veio substituindo outras atividades agrícolas tradicionais na economia regional. Ele apresenta gráficos cruzando o aumento do plantio de soja no estado com o aumento no número de bebês nascidos com malformações.
A relação é ainda mais fortalecida quando é apresentado um mapa mostrando que o número de mortes de bebês causadas por deformações, anomalias cromossômicas e outros defeitos no nascimento é significativamente maior nas áreas de produção de soja e na cidade La Leonesa, que estão sujeitas a altos níveis de pulverização de glifosato e outros agrotóxicos.

Os dados apresentados pela Dra. Otaño também mostram que a incidência de câncer infantil é significativamente maior em cidades expostas aos agrotóxicos (como La Leonesa), quando comparada a cidades moderadamente expostas (como Las Palmas) e a cidades não expostas aos pesticidas (como Puerto Bermejo). A incidência de câncer infantil em La Leonesa é mais de três vezes superior que a de Puerto Bermejo.

Os médicos chamam a atenção para o fato de que o aumento do câncer e malformações congênitas nas áreas mencionadas acompanhou o aumento exponencial do uso de agrotóxicos desde a introdução das lavouras transgênicas.

Segundo o relatório, em 1990 foram usados 35 milhões de litros de agrotóxicos. Em 1996, a introdução das sementes transgênicas acelerou o uso de venenos, levando a um consumo de 98 milhões de litros. Em 2000 foram aplicados 145 milhões de litros. Em 2010 esse número já era de 292 milhões de litros, e espera-se para 2011 um consumo de mais de 300 milhões de litros de herbicidas, inseticidas, acaricidas, desfoliantes e outras substâncias tóxicas. O glifosato sozinho deverá representar 200 milhões de litros nesse conjunto.

O relatório também menciona que o aumento do uso de glifosato verificado a cada ano deve estar relacionado ao desenvolvimento de resistência ao veneno pelas plantas invasoras. Os números indicam que em 1996 eram aplicados menos de 2 litros de glifosato por hectare, enquanto hoje algumas áreas recebem 10 litros por hectare. Em alguns casos chegam a ser aplicados quase 20 litros por hectare. E esses agrotóxicos são aplicados extensivamente, sobre grandes áreas.

Segundo geógrafos da Universidade Nacional de Córdoba, pelo menos 12 milhões de pessoas vivem em cidades rodeadas por lavouras pulverizadas por venenos. Para os médicos, são 12 milhões de argentinos que estão sendo diretamente fumigados.

Entre as propostas apresentadas pelos médicos participantes do Encontro ao final do documento estão a proibição da pulverização aérea de agrotóxicos, cuja deriva espalha incontroladamente substâncias tóxicas pelo ar, e que as universidades públicas passem a desenvolver e promover opções agroecológicas de produção.

Fonte: http://www.mst.org.br 

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Vice-reitor da UFFS é indicado para Comissão Nacional de Biossegurança

http://www.uffs.edu.br/index.php?site=uffs&option=com_content&view=article&id=1679:vice-reitor-e-indicado-para-comissao-nacional-de-biosseguranca&catid=37:noticiasinstitucional

O vice-reitor da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), Antônio Inácio Andrioli, foi nomeado pelo Ministro do Desenvolvimento Agrário, como especialista em agricultura familiar, na Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio). O dirigente desenvolve pesquisas envolvendo organismos geneticamente modificados (OGM) desde 1993.

Com apenas dois anos de existência, a UFFS está representada a partir de agora na Comissão, criada em 2005 para assessorar o Governo Federal na implementação da Política Nacional de Biossegurança. Uma parte de seus membros é indicada pela sociedade civil nas áreas de Saúde Humana, Saúde Animal e Área Vegetal. Os demais membros são indicações de ministérios afins e especialistas em agricultura familiar, biotecnologia, defesa do consumidor, meio ambiente e outros.
Com mandato inicial de dois anos, Andrioli terá entre suas incumbências a análise dos diversos processos que tramitam pela Comissão e a participação nas reuniões ordinárias mensais. Para ele, a indicação pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário deve-se, principalmente, às suas pesquisas no âmbito acadêmico que sempre giraram em torno dos OGMs e suas consequências para a vida dos produtores rurais e dos consumidores. Como pesquisador, tem 156 artigos publicados e já proferiu cerca de 400 palestras sobre o assunto.
O vice-reitor da UFFS é organizador do livro “Transgênicos: As sementes do Mal – A silenciosa contaminação de solos e alimentos” juntamente com Richard Fuchs, tornando-se referência no assunto transgenia depois de ter sido premiado na Alemanha como estudante estrangeiro do ano 2003 pelo DAAD (Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico). Também ganhou notoriedade na Europa como um dos personagens do filme “Verdade Comprada: A transgenia no campo magnético do dinheiro” (tradução livre alemão-português), de Bertram Verhaag, o qual retrata um pouco dos estudos e da perseguição sofrida por cinco pesquisadores da transgenia.
Para Andrioli, a indicação para a CTNBio contribuirá para uma projeção importante da UFFS no cenário nacional. “A região da fronteira sul passa a ser representada neste importante órgão federal, algo que somente é possível agora com a instalação de uma instituição federal de ensino superior”, avalia. O reitor Jaime Giolo também compartilha da mesma ideia. “Sem dúvida é uma honra para nós ter um dirigente da UFFS como membro desta Comissão”.

Sobre a CTNBio
A CTNBio é uma instância colegiada multidisciplinar, criada através da lei nº 11.105, de 24 de março de 2005, cuja finalidade é prestar apoio técnico consultivo e assessoramento ao Governo Federal na formulação, atualização e implementação da Política Nacional de Biossegurança relativa a OGM, bem como no estabelecimento de normas técnicas de segurança e pareceres técnicos referentes à proteção da saúde humana, dos organismos vivos e do meio ambiente, para atividades que envolvam a construção, experimentação, cultivo, manipulação, transporte, comercialização, consumo, armazenamento, liberação e descarte de OGM e derivados.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

OS SABERES TRADICIONAIS E A BIODIVERSIDADE NO BRASIL

Acesse: http://www.usp.br/nupaub/Saberes_PDF.pdf

Transgênicos contaminam as sementes crioulas


Entrevista especial com Magda Zanoni, membro da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança – CTNBio, na qual representa o Ministério do Desenvolvimento Agrário – MDA. (31/10/2011)


Por IHU On-Line

Embora tenha crescido a produção de transgênicos no mundo, não é possível comprovar os benefícios agrícolas e econômicos da transgenia. De acordo com a organizadora do livro Transgênicos para quem? Agricultura, Ciência, Sociedade (Brasilia: Nead, 2011), o tema ainda não é consenso entre os cientistias. “Enquanto a Monsanto faz estudos de impacto em um prazo mínimo, com um número reduzido de animais que alimentam-se de transgênicos, há cientistas como Gilles-Eric Serralini, que realizam estas pesquisas há vários anos, tendo já obtido resultados sobre as modificações fisiológicas dos animais de experimento que corroboram com a presença de riscos”, aponta.
Defensora de uma ciência cidadã, Magda Zanoni argumenta que os novos estudos científicos devem considerar “as necessidades reais da população em termos de saúde e alimentação”. Em entrevista à IHU On-Line, concedida por e-mail, ela informa que atualmente quatro milhões de pessoas morrem de malária no mundo e, portanto, a transgenia não deve ser prioridade. E reitera: “A sociedade civil deve ter um papel preponderante na escolha das linhas de pesquisa e das inovações tecnológicas”.
Magda Zanoni é graduada em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e doutora em Sociologia pela Université Paris I. Atualmente é funcionária da Université de Paris X, e da Universite de Bordeaux II e é membro da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança – CTNBio, na qual representa o Ministério do Desenvolvimento Agrário – MDA. Também é pesquisadora do Núcleo de Estudos Agrários e Desenvolvimento Rural (Nead) do MDA. Magda Zanoni e Gilles Ferment lançaram recentemente o livro Transgênicos para quem? Agricultura, Ciência, Sociedade (Brasilia: Nead, 2011).
Confira a entrevista.
IHU On-Line – A partir da afirmativa de que é preciso debater para se construir uma ciência democrática, que aspectos a senhora destaca como primordiais para o uso dos transgênicos de forma sustentável e em benefício da sociedade?
Magda Zanoni – A questão dos transgênicos ainda não foi discutida com a sociedade civil. Os transgênicos utilizados na agricultura não provam que a maioria dos agricultores familiares e camponeses do mundo seja beneficiada economicamente. Além disso, não há constatações de que a transferência de genes promovida pelas grandes multinacionais como a Monsanto e a Syngenta, que criam novos seres vivos, não tenha impactos sobre a saúde e o meio ambiente. A ciência cidadã leva em conta as necessidades reais da população em termos de saúde e alimentação. Os investimentos nessa biotecnologia não são destinados para eliminar a fome no mundo nem para resolver as exigências de saúde das populações mais necessitadas.
IHU On-Line – Em seu livro, a senhora apresenta um enfoque multidisciplinar para entender os embates em torno do tema dos transgênicos. Como vê a produção de organismos geneticamente modificados (OGMs)?
Magda Zanoni – O Brasil e o governo brasileiro devem fazer uma listagem das principais pesquisas científicas e inovações tecnológicas essenciais para promover um desenvolvimento sustentável com igualdade. Isso pode ser feito através de consultas, debates setoriais, locais, regionais e nacionais, como, aliás, já foi feito no primeiro mandato do governo Lula.
IHU On-Line – Por que a sociedade civil tem um papel tão importante no debate sobre o uso dos transgênicos?
Magda Zanoni – A sociedade civil deve ter um papel preponderante na escolha das linhas de pesquisa e das inovações tecnológicas. Há quatro milhões de indivíduos morrendo de malária no mundo por ano. Portanto, a escolha prioritária não pode ser para os transgênicos?
IHU On-Line – Quais os principais riscos do uso de transgênicos?
Magda Zanoni – A contaminação de cultivos com variedades crioulas tem consequências direta sobre a redução da agrobiodiversidade. Os mecanismos internos que a biologia molecular e a genética estudam para a transferência de genes e a criação de novos seres vivos não encontram, no mundo da ciência, unanimidade. Enquanto a Monsanto faz estudos de impacto em um prazo mínimo, com um número reduzido de animais que se alimentam de transgênicos, há cientistas, como Gilles-Eric Serralini, que realizam essas pesquisas há vários anos, tendo já obtido resultados sobre as modificações fisiológicas dos animais de experimento que corroboram com a presença de riscos.
Não é por acaso que cientistas cidadãos, que comunicam seus resultados a organizações da sociedade civil, sejam marginalizados ou depreciados no mundo da tecnociência. O presidente da CTNBio, em sessão plenária, declarou que seus trabalhos estavam ultrapassados.
IHU On-Line – Como avalia a liberação comercial de sementes transgênicas? Existe aí um risco de consumo? Por quê?
Magda Zanoni – Há risco de consumo de transgênicos porque inexistem estudos epidemiológicos que comprovem a não existência de riscos. Se os laboratórios de medicamentos levam até dez anos para pesquisar os benefícios e riscos de medicamentos originários da transgênese, é de se perguntar as razões de tanta pressa das multinacionais para liberar a comercialização de produtos transgênicos. Convém salientar que o mercado da soja no Brasil já corresponde a 80% do total, e quatro multinacionais estão batalhando para obter o mercado mundial de sementes.
IHU On-Line – Como avalia a questão da não obrigatoriedade de rotulagem dos produtos que contêm ingredientes geneticamente modificados? Que consequências podem ocorrer com a possível perda do direito de saber se o alimento que se está consumindo contém ou não ingredientes transgênicos?
Magda Zanoni – Em primeiro lugar, essas são questões sobre a democracia. Por que não se aplica uma lei se ela foi votada pelo Parlamento? Os deputados não são os representantes do povo? Em segundo lugar, a liberdade também está em questão. Qual é o princípio democrático que não aprova a livre escolha do consumidor em comprar qualquer produto sabendo o que compra? Em vários países europeus a rotulagem foi objeto de grandes reivindicações. A França, por exemplo, votou a obrigação de rotulagem em dezembro de 2010 em função das pressões dos movimentos sociais.

FONTE: IHU On-Line/EcoAgência