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sábado, 6 de agosto de 2011

Extratos à base de feijão-de-porco são eficientes herbicidas

O feijão-de-porco (Canavalia ensiformes) é uma planta legumionosa comestível cujas folhas podem ser usadas como verdura e seus grãos como feijão comum. A espécie, muito comum em regiões tropicais, acaba de ser testada em laboratório, no Instituto de Química de São Carlos (IQSC), da USP, como bio-herbicida. Nos experimentos, os extratos de folhas e sementes da planta se mostraram eficazes contra a trapoeraba (Commelina benghalensis) a corda-de-viola (Ipomoea grandifolia) já adultas. As duas plantas daninhas são competidoras naturais da soja (Glycine max) e prejudicam seu bom desenvolvimento. O extrato não prejudicou o crescimento desta espécie de soja (orgânica ou transgênica) e pode representar um substituto interessante aos herbicidas sintéticos.

A escolha pelo feijão-de-porco teve como base os resultados de um outro estudo do IQSC. Em 2008, a pesquisadora Raquel Lourenço de Mendonça testou o extrato com sementes de Canavalia ensiformis sobre a germinação de corda-de-viola e traporeaba. A partir destes resultados, o químico Isequiel dos Santos Mendes iniciou sua pesquisa em busca do princípio ativo dos extratos tendo como base sementes e folhas do feijão-de- porco: “ a intenção era saber quais compostos estariam presentes nos extratos e a forma de atuação da substância sobre as ervas daninhas adultas da pesquisa”, diz o pesquisador.
Para a realização de seu estudo de mestrado, a metodologia por ele utilizada foi o preparo dos extratos bio-herbicidas em diferentes concentrações e a aplicação sobre as plantas daninhas em diferentes épocas de crescimento.

O químico explica que o procedimento de preparo do extrato leva cerca de 48 horas e é divido em duas fases. Em um recipiente com 1 litro (L) de água (destilada ou de torneira) são misturados 300 gramas (g) de sementes ou folhas. A mistura é filtrada após 24 horas de agitação. A parte filtrada é levada à geladeira. À massa (folhas ou sementes) que restou da filtragem é adicionado 1 L de água, que será agitada por outras 24 horas. Após a agitação, esta nova mistura é filtrada, e depois adicionada ao filtrado que se encontra reservado na geladeira. Ao final, o composto é levado ao rotoevaporador, equipamento que retira a água da parte sólida, e auxilia na obtenção de uma solução mais concentrada, o extrato.

A obtenção de diferentes concentrações do bio-herbicida é obtida por meio da adição de água a determinada massa da solução concentrada final. Assim, para se ter uma concentração de 25g/L do herbicida, basta adicionar 1L de água a 25g do concentrado.
Princípio ativo e Resultado das aplicações

Na análise química dos componentes do extrato, o pesquisador utilizou a cromatografia líquida de alta eficiência (HPLC), processo que possibilita a separação e a identificação dos componentes de uma mistura. “Via HPLC, foram identificadas quatro substâncias no extrato a base de folhas de feijão-de-porco: ácido clorogênico e ácido p-anísico (ácidos fenólicos), naringina e rutina (flavonóides), que apresentam características alelopáticas, ou seja, de alguma forma interferem no desenvolvimento das ervas daninhas usadas no estudo.

O resultado das aplicações mostrou que as concentrações 25 g/L e 50 g/L de extrato preparado de sementes de feijão-de-porco foram as mais eficientes no controle das ervas daninhas. Ambas as concentrações atingiram o objetivo de matá-las e os efeitos visuais mostram o resultado.
No terceiro dia, as folhas da erva murcham e se deformam. Após seis dias, o desenvolvimento da praga é interrompido, não há possibilidade de recuperação

Mendes relata que “em apenas 3 dias os efeitos começam a se tornar visíveis, as folhas das ervas murcham e se deformam. Além disso, a cor se altera do verde para o marrom. No quarto dia, a praga está completamente murcha. E, no quinto, com o caule endurecido, praticamente seca. O desenvolvimento é completamente interrompido, no sexto dia, não havendo possibilidade de recuperação.

Ele também afirma que, embora as demais concentrações não tenham interrompido totalmente o desenvolvimento das plantas daninhas podem ser utilizadas com outros objetivos, como retardo de crescimento em culturas que crescem muito rápido.

Em relação à soja, tantos as amostras orgânicas quanto as transgênicas não foram afetadas pelos extratos. Entretanto, há necessidade de se avaliar a ação do extrato sobre ervas daninhas com mais de 30 dias da germinação e a produtividade, em campo, de culturas de soja sob ação dos extratos para confirmar que apenas a corda-de-viola e a trapoeraba são prejudicadas em seu desenvolvimento, uma vez que crescem antes ou concomitantes à soja.

Extrato x Herbicida Sintético

Dois outros fatos interessantes foram observados durante a pesquisa. O primeiro ocorreu com a comparação indireta sobre a ação do bio-herbicida com dados já existentes de atuação do mais conhecido herbicida sintético do mercado, o glifosato. Enquanto o herbicida biológico age em 6 dias, o sintético apenas apresenta resultados em duas semanas.

Os resultados deste trabalho de pesquisa trazem boas perspectivas com relação ao uso de extratos preparados de plantas no controle de ervas daninhas. Baseando-se na alelopatia, existem muitas possibilidades de se produzir bio-herbicidas que sejam tão eficientes e práticos quanto herbicidas sintéticos, e possivelmente menos agressivos ao ambiente e ao homem. O bio-herbicida preparado a partir de folhas e sementes de feijão-de-porco é fácil de preparar, é barato, e mostrou excelente eficiência no combate às ervas trapoeraba e corda-de-viola.

Sandra O. Monteiro, da Agência USP

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