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domingo, 24 de julho de 2011

E agora, José?

Por Francisco Roberto Caporal
[Professor da Universidade Federal Rural de Pernambuco e Presidente da Associação Brasileira de Agroecologia].

Publicado no Opinião, 14-15 jul. 2011, p. 6 - Caderno 1

Em 1942, o poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade escreveu o poema José, que começa com a frase “E agora, José?” e termina com outra interrogação: José, para onde? Em meio a um cenário hostil, o José de Drummond estava enfraquecido e sem forças para dar conta de sua tarefa. Precisaria enfrentar-se com o poder das elites dominantes da época e lutar contra o avanço do capitalismo.

As perguntas deste poema, de um José que pode ser um indivíduo e um coletivo, ao mesmo tempo, expressam bem o desafio que terá pela frente o professor José Graziano da Silva a partir do dia em que assumir a direção geral da FAO, em janeiro do próximo ano. Cabe lembrar que seu antecessor brasileiro, que esteve no mesmo posto da FAO (1952 a 1956) não era qualquer cidadão. Era nada menos que Josué de Castro, que entre outras obras clássicas nos deixou o belo livro Geografia da Fome, escrito em 1946. Neste livro, Josué já alertava: “Orientada a princípio pelos colonizadores europeus e depois pelo capital estrangeiro, expandiu-se no país uma agricultura extensiva de produtos exportáveis ao invés de uma agricultura intensiva de subsistência, capaz de matar a fome de nosso povo.”...“Os governos se mostraram quase sempre incapazes para impedir esta voraz interferência dos monopólios estrangeiros na marcha da nossa economia.”... “Foi criada em nossas terras a indústria do fique mais rico depressa para uns poucos e que foi, ao mesmo tempo, a indústria da fome para a maioria.”...“Esta situação de desajustamento econômico e social foi consequência da inaptidão do Estado Político para servir de poder equilibrante entre os interesses privados e o interesse coletivo.... Foram interesses alienígenas que predominaram, orientando a nossa economia para a exploração primária da terra e para a exportação de matérias primas assim obtidas.”

Seguramente, a atualização da Geografia da Fome seria uma ferramenta útil para as ações do José da FAO do século XXI. Mais do que nunca, os alimentos são objeto da ganância de uns poucos. Não vivemos somente a continuidade histórica da fome no mundo, com cerca de um milhão de almas padecendo dessa enfermidade. Vivemos num mundo globalizado onde alimento é sinônimo de mercadoria e cidadão virou consumidor. Nesse mundo, consumidor é quem pode ir ao mercado comprar as mercadorias – neste caso, a comida -, que já não se chama mais assim, mas que chamam de commodities. Negociáveis em busca de lucro, sem um mínimo de ética. Por este motivo, a crise da fome é agravada pelo persistente aumento de preços das comidas, que a própria FAO afirma que vai continuar.

E daí? Se não bastasse, o modelo de produção agrícola atual estimula a produção de não-comida, mediante um processo de industrialização de uma agricultura mantida artificial e insustentavelmente pela agroquímica e pelos subsídios públicos. A isso se soma a tendência de aumento das áreas de produção de matérias primas que estão sendo transformadas em biocombustíveis que irão alimentar nossos motores e não a nossa gente. E pior, ocupando terras dantes destinadas a produzir alimentos.

Portanto, uma vez que o mandato da FAO é “alcançar a segurança alimentar para todos e assegurar que as pessoas tenham acesso regular a alimentos de boa qualidade”, é de se esperar que a gestão de Graziano se destaque por estimular a mudança dos modelos agrícola e agrário dominantes. Este é mais um dos grandes desafios que deveria enfrentar o nosso José.

Neste sentido esperamos que ele tenha lido o informe de seu futuro colega Relator Especial da ONU sobre o direito à alimentação, Sr. Olivier De Schutter, publicado em 2010, que recomenda uma profunda mudança nas políticas agrícolas se, de fato, queremos buscar a segurança alimentar da população mundial. O informe recomenda, entre tantas coisas, que sejam desviados os subsídios dados à agricultura convencional agroquímica, os recursos da pesquisa para a agricultura da revolução verde, da extensão rural convencional e do ensino em direção ao fortalecimento de políticas de suporte a uma transição baseada nos princípios da Agroecologia. Inclusive, De Schutter assevera que esta mudança deve ocorrer não só nos países, como também na orientação dos recursos de cooperação internacional para a produção de alimentos.

Do mesmo modo, esperamos que o nosso José tenha lido o informe da “Iª Avaliação Internacional sobre o papel do conhecimento, da ciência e da tecnologia para o desenvolvimento agrícola” (IAASTD), onde centenas de cientistas recomendam mudanças profundas destinadas a transformar o atual modelo de agricultura, na direção de agriculturas que possam degradar menos o meio ambiente e produzir alimentos sadios. Informe este referendado, em 2008, por mais de uma centena de países, inclusive o Brasil.

É certo que a tarefa de Graziano da Silva não será das mais fáceis. Ele mesmo já admite, antes de assumir, que sequer as Metas do Milênio serão alcançadas e que muitos países não conseguirão reduzir em 50% o número de famintos até 2015, como se comprometeram no ano 2000. De toda a forma, temos esperança. Graziano da Silva inspirou uma geração com sua crítica à “modernização dolorosa” e, por suas características e trajetória, podemos esperar que ele viesse a trabalhar em favor das mudanças estruturais necessárias para reduzir a fome no mundo, como a reforma agrária, mas também em favor de políticas de estímulo à produção familiar camponesa, por ser ela que realmente produz os alimentos que consumimos.

Se for possível fazer uma sugestão, recomendaríamos que a primeira ação de Graziano fosse chamar a sociedade civil organizada, as organizações da agricultura familiar camponesa e as sociedades científicas do campo da Agroecologia para um debate visando a construção coletiva de um robusto programa de transição agroecológica e produção de alimentos sadios com menos impactos socioambientais. Um pacto com estes setores, em nível mundial, asseguraria uma gestão mais democrática no caminho de mais sustentabilidade socioambiental e contra a fome.

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