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quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Milho transgênico avança no solo gaúcho

GAZETA MERCANTIL, 10/09/2008.

São Paulo, 10 de Setembro de 2008 - Depois de dois anos de espera, pesquisas, trâmites legais e impasses judiciais, os agricultores gaúchos plantaram pela primeira vez sementes de milho transgênico. O engenheiro agrônomo e presidente da Associação Amigos da terra, Almir Rebelo de Oliveira, é um deles. Parte de sua propriedade, que fica em Tupanciterã, região central do estado, já foi semeada com a versão transgênica da semente.

Finda a querela judicial, o Brasil finalmente vai colher a primeira safra de milho genéticamente modificado (GM), e isso deve acontecer entre os meses de janeiro e fevereiro do próximo ano. Foi só a chuva dar uma trégua no sul do País para os produtores gaúchos plantarem em suas propriedades a primeira leva de milho Bt. Ele carrega a bactéria Bacillus thuringiensis, nociva a certos tipos de insetos. "Há dez anos nós combatemos muitos invasores com a soja transgênica, agora chegou a hora do milho ficar livre pelo menos da lagarta", comemora Almir Rebelo. No dia 2, o agricultor semeou suas lavouras com milho Bt desenvolvida pela multinacional americana Monsanto.

De acordo com estimativa da Céleres, uma área que pode variar entre 4,7% e 6,3% do território nacional deve ser semeada com o grão modificado. Traduzindo em hectares, de um total de 9,574 milhões, entre 461 e 615 mil vão ser cultivados com sementes transgênicas, a maior parte no Rio Grande do Sul. Mas outros estados brasileiros, como Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Minas Gerais e Bahia também aderiram à biotecnologia, esclarece o diretor da Céleres, Leonardo Sologuren. No oeste da Bahia, as lavouras começam a ganhar vida entre os meses de setembro e outubro.

O entusiasta e precursor do cultivo de transgênicos Almir Rebelo usa a mão para enumerar as vantagens da semente desenvolvida a partir de biotecnologia. Além de poupar o meio ambiente e os trabalhadores do contato com doses cavalares de agrotóxico, o milho Bt, segundo ele, evita a ação das lagartas na ponta da espiga. "Este tipo de ataque deixa o milho vulnerável à chuva, o que provoca o apodrecimento da espiga viabilizando o aparecimento de doenças fungicidas", explica o produtor e engenheiro. São elas as responsáveis por boa parte da incidência de alguns tipos de câncer no frango e no porco alimentado com o grão contaminado, e que por vezes podem chegar a atingir o ser humano.

As vantagens enumeradas acima por Almir tem um custo. A semente geneticamente modificada pode superar em pelo menos 30% o valor da convencional. 20 quilos do milho Bt deve chegar a R$ 280. A compensação financeira é feita mais tarde na economia nas doses de agrotóxicos."Como produtor é claro que eu gostaria de desembolsar um valor menor pela semente, mas é o preço que se paga por uma lavoura livre de lagartas e por um solo mais saudável", pondera Almir Rebelo. A saca de milho que ele e os outros produtores de milho brasileiro oferece ao mercado hoje por R$ 23, pode ter uma pequena valorização no início do próximo ano e chegar aos R$ 25, independente de ser milho transgênico.

A aceitação do futuro milho brasileiro no mercado externo não é motivo de preocupação para os produtores do grão. Segundo o presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Milho (Abramilho), Odacir Klein, as portas do mercado europeu e dos outros mercados já foram abertas pela Argentina e pelos EUA - líderes na produção e exportação do grão, "o que pode acontecer é um tipo de premiação por parte do mercado internacional para os produtores do milho tradicional", vislumbra Klein.

"A resistência aos transgênicos está diminuindo. É só uma questão de tempo para o milho percorrer o mesmo caminho já traçado pela soja", afirma o presidente da Odacir Klein.

O levantamento da safra de grãos divulgado pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), aponta para uma produção de 58,5 milhões de toneladas de milho ainda não modificado, com área plantada de 14,7 milhões de hectares. Ao lado da soja, essa cultura já chega a somar 83% da produção total de grãos colhidos no país, e agora uma parcela maior desse montante vai chegar ao mercado consumidor com modificações genéticas.

(Gazeta Mercantil/Caderno C - Pág. 10) (Gilmara Botelho).

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