inescburg@yahoo.com.br

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Viúva de Paulo Freire escreve carta de repúdio à Revista Veja

16/09/2008 - Na edição de 20 de agosto a revista Veja publicou a reportagem O que estão ensinando a ele? De autoria de Mônica Weinberg e Camila Pereira, ela foi baseada em pesquisa sobre qualidade do ensino no Brasil. Lá pelas tantas há o seguinte trecho:

"Muitos professores brasileiros se encantam com personagens que em classe mereceriam um tratamento mais crítico, como o guerrilheiro argentino Che Guevara, que na pesquisa aparece com 86% de citações positivas, 14% de neutras e zero, nenhum ponto negativo. Ou idolatram personagens arcanos sem contribuição efetiva à civilização ocidental, como o educador Paulo Freire, autor de um método de doutrinação esquerdista disfarçado de alfabetização. Entre os professores ouvidos na pesquisa, Freire goleia o físico teórico alemão Albert Einstein, talvez o maior gênio da história da humanidade. Paulo Freire 29 x 6 Einstein. Só isso já seria evidência suficiente de que se está diante de uma distorção gigantesca das prioridades educacionais dos senhores docentes, de uma deformação no espaço-tempo tão poderosa, que talvez ajude a explicar o fato de eles viverem no passado".

Curiosamente, entre os especialistas consultados está o filósofo Roberto Romano, professor da Unicamp. Ele é o autor de um artigo publicado na Folha, em 1990, cujo título é Ceausescu no Ibirapuera. Sem citar o Paulo Freire, ele fala do Paulo Freire. É uma tática de agredir sem assumir. Na época Paulo, era secretário de Educação da prefeita Luiza Erundina.

Diante disso a viúva de Paulo Freire, Nita, escreveu a seguinte carta de repúdio:

"Como educadora, historiadora, ex-professora da PUC e da Cátedra Paulo Freire e viúva do maior educador brasileiro PAULO FREIRE -- e um dos maiores de toda a história da humanidade --, quero registrar minha mais profunda indignação e repúdio ao tipo de jornalismo, que, a cada semana a revista VEJA oferece às pessoas ingênuas ou mal intencionadas de nosso país. Não a leio por princípio, mas ouço comentários sobre sua postura danosa através do jornalismo crítico. Não proclama sua opção em favor dos poderosos e endinheirados da direita, mas , camufladamente, age em nome do reacionarismo desta.

Esta vem sendo a constante desta revista desde longa data: enodoar pessoas as quais todos nós brasileiros deveríamos nos orgulhar. Paulo, que dedicou seus 75 anos de vida lutando por um Brasil melhor, mais bonito e mais justo, não é o único alvo deles. Nem esta é a primeira vez que o atacam. Quando da morte de meu marido, em 1997, o obituário da revista em questão não lamentou a sua morte, como fizeram todos os outros órgãos da imprensa escrita, falada e televisiva do mundo, apenas reproduziu parte de críticas anteriores a ele feitas.

A matéria publicada no n. 2074, de 20/08/08, conta, lamentavelmente com o apoio do filósofo Roberto Romano que escreve sobre ética, certamente em favor da ética do mercado, contra a ética da vida criada por Paulo. Esta não é, aliás, sua primeira investida sobre alguém que é conhecido no mundo por sua conduta ética verdadeiramente humanista.

Inadmissivelmente, a matéria é elaborada por duas mulheres, que, certamente para se sentirem e serem parceiras do "filósofo" e aceitas pelos neoliberais desvirtuam o papel do feminino na sociedade brasileira atual. Com linguagem grosseira, rasteira e irresponsável, elas se filiam à mesma linha de opção política do primeiro, falam em favor da ética do mercado, que tem como premissa miserabilizar os mais pobres e os mais fracos do mundo, embora para desgosto deles, estamos conseguindo, no Brasil, superar esse sonho macabro reacionário.

Superação realizada não só pela política federal de extinção da pobreza, mas , sobretudo pelo trabalho de meu marido – na qual esta política de distribuição da renda se baseou - que demonstrou ao mundo que todos e todas somos sujeitos da história e não apenas objeto dela. Nas 12 páginas, nas quais proliferam um civismo às avessas e a má apreensão da realidade, os participantes e as autoras da matéria dão continuidade às práticas autoritárias, fascistas, retrógradas da cata às bruxas dos anos 50 e da ótica de subversão encontrada em todo ato humanista no nefasto período da Ditadura Militar.

Para satisfazer parte da elite inescrupulosa e de uma classe média brasileira medíocre que tem a Veja como seu "Norte" e "Bíblia", esta matéria revela quase tão somente temerem as idéias de um homem humilde, que conheceu a fome dos nordestinos, e que na sua altivez e dignidade restaurou a esperança no Brasil. Apavorada com o que Paulo plantou, com sacrifício e inteligência, a Veja quer torná-lo insignificante e os e as que a fazem vendendo a sua força de trabalho, pensam que podem a qualquer custo, eliminar do espaço escolar o que há de mais importante na educação das crianças, jovens e adultos: o pensar e a formação da cidadania de todas as pessoas de nosso país, independentemente de sua classe social, etnia, gênero, idade ou religião.

Querendo diminuí-lo e ofendê-lo, contraditoriamente a revista Veja nos dá o direito de concluir que os pais, alunos e educadores escutaram a voz de Paulo, validando e praticando. Portanto, a sociedade brasileira está no caminho certo para a construção da autêntica democracia. Querendo diminuí-lo e ofendê-lo, contraditoriamente a revista Veja nos dá o direito de proclamar que Paulo Freire Vive!

São Paulo, 11 de setembro de 2008
Ana Maria Araújo Freire".

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Milho transgênico avança no solo gaúcho

GAZETA MERCANTIL, 10/09/2008.

São Paulo, 10 de Setembro de 2008 - Depois de dois anos de espera, pesquisas, trâmites legais e impasses judiciais, os agricultores gaúchos plantaram pela primeira vez sementes de milho transgênico. O engenheiro agrônomo e presidente da Associação Amigos da terra, Almir Rebelo de Oliveira, é um deles. Parte de sua propriedade, que fica em Tupanciterã, região central do estado, já foi semeada com a versão transgênica da semente.

Finda a querela judicial, o Brasil finalmente vai colher a primeira safra de milho genéticamente modificado (GM), e isso deve acontecer entre os meses de janeiro e fevereiro do próximo ano. Foi só a chuva dar uma trégua no sul do País para os produtores gaúchos plantarem em suas propriedades a primeira leva de milho Bt. Ele carrega a bactéria Bacillus thuringiensis, nociva a certos tipos de insetos. "Há dez anos nós combatemos muitos invasores com a soja transgênica, agora chegou a hora do milho ficar livre pelo menos da lagarta", comemora Almir Rebelo. No dia 2, o agricultor semeou suas lavouras com milho Bt desenvolvida pela multinacional americana Monsanto.

De acordo com estimativa da Céleres, uma área que pode variar entre 4,7% e 6,3% do território nacional deve ser semeada com o grão modificado. Traduzindo em hectares, de um total de 9,574 milhões, entre 461 e 615 mil vão ser cultivados com sementes transgênicas, a maior parte no Rio Grande do Sul. Mas outros estados brasileiros, como Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Minas Gerais e Bahia também aderiram à biotecnologia, esclarece o diretor da Céleres, Leonardo Sologuren. No oeste da Bahia, as lavouras começam a ganhar vida entre os meses de setembro e outubro.

O entusiasta e precursor do cultivo de transgênicos Almir Rebelo usa a mão para enumerar as vantagens da semente desenvolvida a partir de biotecnologia. Além de poupar o meio ambiente e os trabalhadores do contato com doses cavalares de agrotóxico, o milho Bt, segundo ele, evita a ação das lagartas na ponta da espiga. "Este tipo de ataque deixa o milho vulnerável à chuva, o que provoca o apodrecimento da espiga viabilizando o aparecimento de doenças fungicidas", explica o produtor e engenheiro. São elas as responsáveis por boa parte da incidência de alguns tipos de câncer no frango e no porco alimentado com o grão contaminado, e que por vezes podem chegar a atingir o ser humano.

As vantagens enumeradas acima por Almir tem um custo. A semente geneticamente modificada pode superar em pelo menos 30% o valor da convencional. 20 quilos do milho Bt deve chegar a R$ 280. A compensação financeira é feita mais tarde na economia nas doses de agrotóxicos."Como produtor é claro que eu gostaria de desembolsar um valor menor pela semente, mas é o preço que se paga por uma lavoura livre de lagartas e por um solo mais saudável", pondera Almir Rebelo. A saca de milho que ele e os outros produtores de milho brasileiro oferece ao mercado hoje por R$ 23, pode ter uma pequena valorização no início do próximo ano e chegar aos R$ 25, independente de ser milho transgênico.

A aceitação do futuro milho brasileiro no mercado externo não é motivo de preocupação para os produtores do grão. Segundo o presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Milho (Abramilho), Odacir Klein, as portas do mercado europeu e dos outros mercados já foram abertas pela Argentina e pelos EUA - líderes na produção e exportação do grão, "o que pode acontecer é um tipo de premiação por parte do mercado internacional para os produtores do milho tradicional", vislumbra Klein.

"A resistência aos transgênicos está diminuindo. É só uma questão de tempo para o milho percorrer o mesmo caminho já traçado pela soja", afirma o presidente da Odacir Klein.

O levantamento da safra de grãos divulgado pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), aponta para uma produção de 58,5 milhões de toneladas de milho ainda não modificado, com área plantada de 14,7 milhões de hectares. Ao lado da soja, essa cultura já chega a somar 83% da produção total de grãos colhidos no país, e agora uma parcela maior desse montante vai chegar ao mercado consumidor com modificações genéticas.

(Gazeta Mercantil/Caderno C - Pág. 10) (Gilmara Botelho).

I Encontro Nordestino de Meio Ambiente e Sustentabilidade no Mundo Moderno