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segunda-feira, 28 de julho de 2008

Revista Veja e a avaliação dos alimentos verdes

A pedido dos jornalistas Marcos Todeschini e Milena Emilão fui contatada para avaliar alguns produtos orgânicos para o Guia Veja da edição 2069, publicado semanalmente na Revista Veja. A seção Guia Veja foca normalmente na qualidade de alimentos que são avaliados por um grupo de profissionais da área da Nutrição e um chef de cozinha.
A reportagem, como todas que abordam o tema dos orgânicos na mídia não especializada, parece superficial e tendenciosa e não levou em consideração as questões técnicas que eu apresentei e que envolvem o estudo da qualidade dos alimentos orgânicos. Além do fato de colocar meu nome numa reportagem que não considerou as minhas colocações como nutricionista especializada em alimentos orgânicos, a revista veiculou informações incoerentes que revelam desconhecimento do tema analisado.
A primeira pergunta possível de se fazer com base na colocação inicial da entrevista que afirma que “a ciência ainda não chegou a uma conclusão de que os orgânicos têm vantagens”, seria: qual ciência? Vivemos em uma época em que se não se admite mais uma ciência moderna legitimadora de consensos, mas muitas ciências influenciadas por divisões políticas, divisões cientificas entre visões reducionistas e sistêmicas da ciência, interesses das instituições patrocinadoras, vínculos das autoridades cientificas e divisões institucionais. É muito claro que uma ciência que afirma que não há pesquisas conclusivas sobre a qualidade dos alimentos orgânicos ou sobre os riscos dos transgênicos, por exemplo, está fundamentada numa visão reducionista da ciência, mantida por grandes corporações de sementes e insumos agrícolas e pelos interesses da indústria alimentar.
A incontestável superioridade do alimento orgânico, já explorada em estudos disponibilizados aos repórteres, se baseia essencialmente na qualidade da gordura dos produtos de origem animal (tais produtos não foram apresentados na entrevista final, apesar ter sido pedido inicialmente a análise de um iogurte de origem orgânica) e no teor aumentado de fitoquímicos e micronutrientes dos produtos orgânicos.
O fato é que conceito de valor nutricional que embasou a análise dos produtos, de caráter calórico-quantitativo, enfoca essencialmente os macronutrientes (carboidratos, gorduras e proteínas) e não dá conta de compreender o real valor dos alimentos orgânicos que repousa em um conceito ampliado de valor nutricional. Sem levar em conta as noções de saúde social e ambiental com as quais a produção orgânica tem íntima relação, tal conceito é o único capaz de abarcar o polêmico conceito de alimento saudável.
Esse conceito considera, além do equilíbrio dos nutrientes (ou seja, não queremos alimentos com maior teor de macronutrientes, mas com quantidades equilibradas de todos eles que somente o manejo orgânico é capaz de produzir); a qualidade da gordura ( comprovadamente melhor em pesquisas que analisam leite, ovos e carnes de animais criados organicamente); a quantidade aumentada de minerais e algumas vitaminas; a qualidade dos óleos etéricos; o teor de fitoquímicos; a ausência de resíduos de contaminantes sintéticos, além de processamentos de impacto, não mencionados na definição de orgânicos veiculada - como a irradiação, a base de metais pesados e o uso de aditivos químicos sintéticos (corantes, aromatizantes, emulsificantes, flavorizantes, etc).
A partir dessas considerações, pode-se ressaltar que o macarrão e o arroz orgânicos da reportagem apresentam um maior teor de micronutrientes, não só por serem integrais, mas também por sua origem orgânica. O que não existem são pesquisas que comparem dois tipos de macarrões integrais - convencional e orgânico - e que demonstrem o que foi apontado na reportagem “quanto a ser orgânico, isso não lhe acrescenta benefício nutricional”. Além disso, se o arroz integral orgânico apresentado na mesma reportagem foi avaliado como mais nutritivo, o macarrão integral orgânico, feito de trigo, um cereal como o arroz, também merece o mesmo tipo de comentário que foi dado ao arroz.
O chá orgânico da Namastê, analisado na reportagem, segundo pesquisa realizada na Universidade Federal do Sergipe, tem melhor qualidade dos óleos etéricos o que se traduz em um chá com ação funcional mais eficaz, além de ser não ser irradiado com a grande maioria de chás convencionais. Pode-se afirmar que um produto que tem a pretensão de ser saudável e que é também utilizado com fins terapêuticos não deveria ser irradiado com metais pesados como cobalto e césio no seu processamento para aumentar a durabilidade. A entrevista ignorou essa importante informação e ressalta que “não existe nenhuma vantagem nutricional do chá orgânico em relação a um chá tradicional (termo errado, aliás, porque tradicional não significa convencional).
O açúcar Native, sendo refinado, perde realmente grande parte dos seus micronutrientes mantidos com cuidado no solo da produção orgânica, mas mesmo assim o fato de ser orgânico e livre de contaminantes o torna mais saudável, sem dúvida. E por ser mais calórico, como a reportagem ressalta, tem maior teor de carboidratos e menos dele é necessário para produzir energia no organismo. Isso pode ser uma vantagem para o consumidor. Ressalto que não é o fato de um produto ser mais calórico que faz dele um alimento que promove ganho de peso como sugere a entrevista, mas a ingestão desequilibrada ou excessiva do mesmo, em uma dieta desequilibrada.
Aliás, a tendência dos especialistas em Nutrição, veiculada pelas entrevistas de caráter reducionista, é sempre apontar alimentos light, desnatados ou diet como mais saudáveis, que é exatamente o oposto da proposta da alimentação integral orgânica. O melhor alimento para promover a saúde é o integral, com todos os seus nutrientes que o manejo orgânico oferece. Se o consumidor ingere, por exemplo, leite desnatado, ele perde, junto com a gordura, as vitaminas lipossolúveis do leite - A, D, E e K. O mesmo ocorre com produtos refinados e alimentos light. Eles são desequilibrados exatamente nos micronutrientes que precisam ser posteriormente repostos a partir de cápsulas sintéticas e suplementos. Além disso, os alimentos orgânicos de origem animal têm menor teor de ácidos graxos saturados e equilíbrio na quantidade de ômega 3 e 6 o que torna sua gordura mais saudável. Alimentos light, diet e desnatados não são mais saudável, mas representam um grande nicho de mercado de empresas oportunistas e especialistas com visões reducionistas e devem ser usados somente em pacientes com necessidades especiais. Para controlar o peso a dieta como um todo deve ser equilibrada em alimentos verdadeiramente saudáveis, dentro de um contexto de qualidade de vida. Mas isso daria outra entrevista.
Por fim, em nenhum momento a reportagem destaca o que é irrefutável: que o orgânico tem menos resíduos de contaminantes (não só agrotóxicos, hormônios e fertilizantes como afirmam), mas também transgênicos, outras drogas veterinárias, produtos da irradiação e aditivos sintéticos e, só por isso, já se constitui num alimento mais saudável. Repito que a análise do valor nutricional analítico de um alimento não o define como saudável.
Outras informações superficiais da reportagem veiculam que não há diferenças entre o orgânico e biodinâmico, o que demonstra desconhecimento de pesquisas que apontam maior teor de matéria seca (teor total de nutrientes) em diversos produtos de origem biodinâmica, quando comparados aos convencionais e orgânicos. E a discussão inconsistente do termo Natural que são igualmente alimentos orgânicos provenientes de uma forma de Agricultura Sustentável praticada com base nas idéias de Mokiti Okada. Sabemos que a indústria de alimentos se apoderou indevidamente do termo natural, mas no contexto da reportagem ele precisa ser esclarecido devidamente.
Para finalizar, ente as medidas ecológicas sinalizadas pela reportagem o consumo de alimentos orgânicos não foi enfatizado quando esse se apresenta como uma das ações mais concretas e sistemáticas que um consumidor pode assumir para apoiar a sustentabilidade socioambiental do planeta. O sistema alimentar convencional de alimentos (que abrange a agropecuária e a indústria alimentar) é um dos maiores atores no processo de desequilíbrio socioambiental, responsável por impactos na natureza que vão desde a poluição do ar e águas, erosão de terras, contaminação de alimentos, perda de biodiversidade, até a promoção da exclusão social do pequeno produtor e de povos nativos.
Não espero que a Revista Veja tenha espaço ou disposição para expor todo o conteúdo dessa carta, mas eu a direciono especialmente aos consumidores e cidadãos que merecem informações consistentes sobre o conceito de orgânico e de alimento saudável, tão pobremente explorados pela mídia.

Florianópolis, 23 de julho de 2006

Nut. Msc Elaine de Azevedo
Consultora do Portal Orgânico

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