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quarta-feira, 7 de maio de 2008

Mobilização retomar nossos sistemas alimentares na Era “Pós-Pico” do petróleo

Miguel A Altieri
Universidade da Califórnia, Berkeley

A agricultura mundial parece estar se aproximando de uma encruzilhada. A economia globalizada atribuiu aos 1.5 bilhões de hectares de terras cultiváveis uma série de exigências conflitantes. Não só essa terra é necessária para a produção de alimentos para um número cada vez maior de pessoas, como também deve satisfazer às exigências crescentes pelos biocombustíveis. Tudo isso deve ser feito de um modo ambientalmente correto, conservando a biodiversidade e reduzindo as emissões que causam o efeito estufa e representando, ainda, uma atividade lucrativa para milhões de agricultores. Essas pressões estão desencadeando uma crise no sistema alimentar mundial de alcance sem precedentes, já evidente nos protestos devido à escassez de alimentos, que acontecem em muitas partes do mundo. Esta crise, que ameaça a segurança alimentar de mais de 800 milhões de pessoas famintas no planeta, é o resultado direto do modelo de agricultura industrial dominante, que não só é perigosamente dependente dos combustíveis fósseis, como também tornou-se a maior fonte do impacto humano na biosfera. Na verdade, existem hoje tantas pressões sobre os ecossistemas cultiváveis em diminuição, que a agricultura está minando a capacidade da natureza de satisfazer as necessidades alimentares, energéticas e de matéria prima da humanidade. O drama consiste no fato de que a agricultura depende de muitos serviços ecológicos (ciclo da água, polinizadores, formação de solo fértil, clima local apropriado, etc.) que a agricultura intensiva constantemente degrada ou força além dos seus limites.

Antes do fim da primeira década do século XXI, a humanidade está percebendo rapidamente que o modelo agrícola industrial do ocidente, baseado no uso de combustíveis fósseis e no capital intensivo, não está produzindo o suficiente para atender as demandas alimentares dos vários países. A explosão do preço do petróleo irá inevitavelmente aumentar os custos de produção e os preços dos produtos alimentares, que chegaram ao ponto em que, hoje, um dólar compra 30% menos de comida que há um ano atrás. Esta situação está se agravando rapidamente pelo fato de que as terras cultivadas têm sido convertidas da produção de alimentos para a produção de biocombustíveis e também pelas alterações climáticas que já reduzem o rendimento das culturas devido às secas, inundações e outros fenômenos climáticos imprevisíveis. A expansão de áreas dedicadas a culturas transgênicas ou ao biocombustível irá exarcebar ainda mais os impactos ecológicos das vastas monoculturas, que constantemente ignoram os serviços de natureza. Além disso, a agricultura industrial atualmente contribui com pelo menos um quarto das emissões dos gases causadores do efeito estufa, principalmente metano e óxido nitroso. A continuação deste sistema dominante de degradação, como o promovido pelo atual paradigma econômico neoliberal, não é mais uma opção viável.

O desafio imediato para a nossa geração é transformar a agricultura industrial e iniciar uma transição nos sistemas alimentares, distante da relação de dependência com os combustíveis fósseis. Precisamos de um paradigma de desenvolvimento agrícola alternativo, que estimule formas de agricultura ecológica, social e biodiversamente mais justas. Remodelar toda a política agrícola e o sistema alimentar de forma que sejam ambientalmente corretos e economicamente viáveis para os agricultores e os consumidores irá exigir grandes mudanças nas forças políticas e econômicas que determinam o que está sendo produzido, por quem e para quem. O liberalismo comercial sem controle é o mecanismo-chave de expulsão dos agricultores de suas terras e o principal obstáculo ao desenvolvimento econômico local e à segurança alimentar. Só desafiando o controle que as grandes corporações multinacionais exercem sobre do sistema alimentar e mudando o modelo de agricultura orientado para exportação e para o livre comércio é que a espiral de pobreza, baixos salários, migração rural-urbana, fome e degradação ambiental poderá ser detida.
O conceito de soberania alimentar, tal como promovido pelo movimento mundial de pequenos agricultores, a Via Campesina, constitui a única alternativa viável à atual sucumbência do sistema alimentar mundial, que falhou em suas suposições de que o comércio internacional seria a chave para solucionar o problema alimentar do mundo. Em vez disso, a soberania alimentar concentra-se em circuitos locais fechados de produção e consumo e ações comunitárias para o acesso à terra, à água, à agrobiodiversidade, etc., os quais têm uma importância central para que as comunidades possam ter controle a fim de serem capazes de produzir localmente alimentos com métodos agroecológicos. Não há dúvidas de que a aliança entre agricultores e consumidores tem uma importância estratégica. Além de um movimento para baixo na cadeia alimentar, que implica em consumir menos proteína animal, os consumidores também têm de perceber que a sua qualidade de vida está firmemente associada ao tipo de agricultura praticada em áreas rurais vizinhas, não só por causa da qualidade da comida produzida, mas também porque a agricultura é a produtora multifuncional de uma série de serviços ambientais tais como a qualidade de água e conservação de biodiversidade. Mas esta multifuncionalidade só pode emergir se as paisagens agrícolas são salpicadas por pequenas propriedades diversificadas, que, como os estudos mostram, podem produzir de 2 a10 vezes mais por unidade de área que as grandes fazendas corporativas. Nos EUA, os 25% dos agricultores mais bem sucedidos que empregam métodos sustentáveis, que são em sua maioria de médio porte, possuem rendimentos mais altos que os agricultores convencionais e exercem um impacto negativo muito menor no ambiente, reduzindo a erosão do solo e conservando a biodiversidade. As comunidades rodeadas de pequenas unidades de produção populosas experimentam menos problemas sociais e têm economias mais sãs do que as comunidades rodeadas de grandes fazendas de monoculturas, despovoadas e mecanizadas. Assim, deve ser óbvio para os moradores da cidade que comer é tanto um ato político quanto ecológico; que comprar alimentos nos mercados locais de agricultores irá apoiar o tipo de agricultura pós-pico do petróleo, que é urgentemente necessária, ao mesmo tempo em que comprar alimentos em supermercados perpetua uma trajetória agrícola insustentável.
A dimensão e a urgência do desafio que enfrentamos não encontram nenhum precedente, mas o que precisa ser feito é ambiental, econômica e politicamente possível. A velocidade com a qual essas mudanças devem ser implementadas é grande, mas é duvidoso que possamos reunir a vontade política para transformar radicalmente o nosso sistema alimentar antes que a fome e a insegurança alimentar alcancem níveis mundiais e irrevogáveis.

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