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sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Pastoreio Racional Voisin: sob medida para a agricultura familiar de base ecológica

* Por Paulo Henrique Mayer


Pecuária Leiteira

A pecuária leiteira torna-se cada vez mais uma importante atividade geradora de trabalho e de renda na agricultura familiar. Inclusive, um fator de permanência das famílias na atividade produtiva. Não é à toa que os agricultores familiares do Sudoeste do Paraná, produtores de leite, aguardam ansiosos pelas informações do novo Censo Agropecuário do IBGE. A expectativa é de que a região salte do posto de segunda bacia leiteira do Estado para a primeira colocação, tanto em número de famílias produtoras quanto em volume de produção de leite e derivados.

Por conta dessa importância estratégica da pecuária leiteira nas regiões de predomínio da agricultura familiar e até mesmo visando barrar os avanços da monocultura de exportação e das chamadas commodities, tenho feito vários estudos e palestras pelo interior do país sobre a utilização do método de Pastoreio Racional Voisin (PRV), que oferece vantagens econômicas, sociais e ambientais. Ele tem esse nome em homenagem ao pesquisador francês, André Voisin, que difundiu a técnica no cenário da agropecuária mundial.

Coincidentemente, a palavra “voisin”, no idioma original, significa “vizinho”. O método basicamente preconiza a divisão das áreas de pastagens em piquetes, a fim de promover o descanso dos pastos e favorecer a fotossíntese, garantindo o acúmulo de reservas energéticas e protéicas nas raízes das plantas. É um sistema rotacionado racional, ou seja, conduzido pela mão humana. Não é rotativo porque o gado não segue uma seqüência pré-ordenada. Os animais mudam de piquete em busca do melhor pasto e essa constatação vem de uma análise criteriosa do estado fisiológico da pastagem. Em outras palavras, o gado é colocado no piquete que oferecer maior quantidade de matéria seca por hectare por dia, com ótimo teor de proteína e maior digestibilidade. Também é levado em consideração o critério da quantidade de matéria nas raízes para promover uma abundante rebrota da forragem.

O PRV também preconiza que haja água em abundância em todos os piquetes. Normalmente, essa água é fornecida em bebedouros que ficam ao sol. Como o gado leiteiro não tem esmalte nos dentes, ele prefere a água morna, pois a água gelada provoca dor de dente. Parece excesso de zelo dizer isso, mas já presenciei casos em que o gado morre de sede, mesmo tendo água à vontade à sua volta e uma das causas disso é o efeito da dominância que existe em lotes de gado.

Para entender melhor esse fenômeno, em locais onde o gado bebe água em açudes, os animais dominantes, chamados de animais “alfa”, são os primeiros a ter acesso a água limpa e morna, entrando no açude para tomar a primeira água. Eles adentram no açude até ficar com a água na altura do peito e com isso, consumir o líquido em melhores condições. Ao sair, normalmente urinam e defecam contaminando a água com dejetos fecais. O gado ruminante, por sua vez, possui uma memória genética, que faz com que ele rejeite a ingestão de água e de pasto que estejam contaminados com fezes e urina. Isso acontece em função da evolução da espécie bovina. No decorrer da história, todos os animais que tinham o hábito de ingerir água e pasto contaminado com fezes, contaminaram-se com verminoses. Esses animais ficaram mais fracos, mais magros e com estado de saúde mais debilitado, tornando-se presas preferenciais dos predadores do gado bovino. Conseqüentemente, no decorrer da evolução dessa espécie, os animais que tinham esses hábitos, não deixaram herdeiros, e é por isso que todos os bovinos que conhecemos na atualidade não comem o pasto que cresce ao redor do esterco e do local onde foi urinado, por um período mínimo que pode variar entre 30 e 65 dias. Da mesma forma, não bebem água contaminada com dejetos fecais.

Depois que os animais dominantes tomaram água sujaram com fezes, urina e com suspensão de argila e silte, vem o segundo lote, que não é dominante do tipo “alfa”, mais tem dominância intermediária. Esses animais, para terem acesso a água de boa qualidade, adentram um pouco mais no açude, tendo que entrar com água na altura do pescoço. Eles também contaminam a água da mesma forma que o lote de animais “alfa”. Já o terceiro lote é denominado “amimais de rabeira”, ou seja, que não apresentam dominância. Ele tem acesso a uma água contaminada e acaba ingerindo bem menos que as suas necessidades diárias. Além disso, esse líquido também apresenta contaminação de argila, areia e silte, o que pode provocar a morte desses animais, desgaste prematuro dos dendês, deficiência ruminal, e suas conseqüências.

O Pastoreio Racional Voisin elimina ou diminui o efeito da dominância, uma vez que num mesmo piquete são fornecidos em abundância os alimentos: cochos com água morna (aquecida pelo sol), cocho com sal mineral puro e outro cocho com sal comum. Os animais se revezam e se alimentam ao mesmo tempo, impedindo que um grupo de animais venha na frente e possa urinar ou defecar sobre a comida dos demais. Quando as vacas dominantes vão beber água, as outras se distribuem e se revezam em alimentação no cocho com sal comum e no cocho com sal mineral. Quando os animais dominantes vão para um cocho de sal, os outros terão acesso a água limpa e morna.

Outro fator que conta pontos favoráveis para o PRV é que os animais manejados ficam também mais dóceis quando têm acesso a pasto fresco, abundante e de boa qualidade. E, à noite, o bosteamento e a urina do gado favorecem a fertilização do solo e promovem o desenvolvimento da macro-fauna no terreno: insetos, o besouro vira-bosta, minhocas e centopéias. O besouro “vira-bosta” abre canais no solo, faz um ninho e deposita as bolinhas de bosta numa câmara interna ao solo. Nessas bolinhas de bosta, ele faz a postura de seus ovos, que quando eclodem (nascem), as larvas se alimentam dessas fezes. Com isso, ele faz a aeração do terreno, ajuda a inverter camadas inferiores de terra e melhora a fertilidade geral do solo. Também permite que raízes dos pastos penetrem mais fundo, busquem a umidade e não sofram estresse hídrico. Outra função do “vira-bosta” é fazer o controle biológico da mosca-dos-chifres, pois a mesma põe seus ovos na bosta do gado e como as larvas do besouro se alimentam dela, acabam eliminando as mesmas. Minhocas e centopéias, por sua vez, trituram melhor a matéria orgânica do solo, fazendo húmus e as bactérias em geral respondem pela mineralização dessa matéria orgânica, tornando os nutrientes da mesma disponíveis para a absorção novamente pelas plantas – a chamada ciclagem dos nutrientes.

O Pastoreio Racional Voisin permite que haja um grande salto na produtividade das áreas manejadas (pastos), tanto para a produção de leite quanto a de carnes. O período de permanência do gado no piquete é significativamente pequeno; varia de 1 a 3 dias. Isso exige que, no intervalo, o gado não fique tanto tempo num piquete a ponto de comer a rebrota tenra. Ele deve ficar, pelo menos, um dia e uma noite no piquete para que possa urinar e defecar na área e, com isso, melhorar a qualidade do sistema. Essas ações também contribuem para diminuir a infestação de doenças e de pragas. É o caso de verminoses e do carrapato, cuja ocorrência reduz significativamente por conta da eliminação do ciclo dos carrapatos e das verminoses.

Uma prática corriqueira da agroecologia, presente no PRV, é estimular a movimentação do gado pela manhã, antes de sair do piquete. Isso faz com que o animal defeque e urine no piquete, não na estrebaria, na sala de espera e ordenha ou na mangueira e reduz a contaminação por mastite (infecção do úbere – glândula mamária das vacas).

O PRV preconiza, ainda, o melhoramento dos pastos, pela introdução de forragens e leguminosas de alto valor protéico. As leguminosas apresentam a vantagem de fixar Nitrogênio do ar (fixação natural) e, em geral, seu teor de proteína fica em torno de 20%. Em uma gramínea, mesmo que de espécie melhorada, essa taxa varia de 3 a 15%. O método incentiva a sobre-semeadura de pastos em cima de potreiros ou de gramados. A técnica é bem simples: o gado pasta um dia no piquete e rebaixa o pasto. No final da tarde, semeia-se a forragem que quiser. Por exemplo, azevém sobre a grama, no mês de maio em clima subtropical, é muito utilizado para a produção de leite no Paraná e em regiões de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul. Deixa-se o gado pousar no piquete e ficar lá até o outro dia cedo. Durante a noite, os animais pastaram, caminharam, bostearam e urinaram sobre esse terreno. Mas o pisoteio, principalmente, vai fazer com que as sementes plantadas a lanço entrem em contato com o solo úmido e possam nascer plenamente e com mais vigor. É o caso do amendoim forrageiro (21% de proteína). Ele é plantado entre 7 a 8 dias depois que o gado defecou; é colocado embaixo da bosta e com uma ponta de fora, pois ali, encontra condições melhores de umidade e de fertilidade para se desenvolver. A planta se enraíza, pois o gado leva de 50 a 60 dias para comer. Essa técnica de plantar sob a bosta é muito eficiente, pois evita desperdício de mão-de-obra em mexer no solo e garante o enraízamento. Se optarmos por plantar mexendo o solo, deveremos garantir que o gado só entre na área para pastorear depois que a planta enraizar bem, pois, do contrário, corre-se o risco de ser arrancado do berço de plantio durante o pastoreio.

E quanto ao custo? O custo é relativamente reduzido se comparado com sistemas convencionais de implantação de pastagens. Todas as cercas devem ser eletrificadas e isso também tem impacto na redução do custo de implantação. O Voisin, embora reduza a penosidade do trabalho, demanda mais mão-de-obra especializada, o que é um fator positivo para a agricultura familiar, pois aumenta a ocupação de pessoas no campo. Em geral, o leite produzido em PRV tem custo de produção menor na cadeia. Fica em torno de R$ 0,17 (17 centavos) por litro e é vendido a R$ 0,55. Por fim, o PRV não preconiza trato do animal no cocho de forma volumosa.

Vantagens ecológicas do método de Pastoreio Racional Voisin: - Permite manter as reservas legais e triplica a produção de pasto nas propriedades; - aumenta o teor de matéria orgânica no sistema; - promove a refertilização do solo; - é um sistema de produção de leite e carne a pasto; - diminui a ocorrência de pragas e doenças no rebanho; - elimina a necessidade de limpeza de potreiros e pastos (roçados, capinas); - diminui a penosidade do trabalho; - aumenta a produtividade por área e promove o bem-estar animal.

Técnicas como as do PRV são especialmente desenvolvidas para a agricultura familiar de base ecológica. No Sul do Brasil, é correto afirmar que em torno de 90% dos produtores em regime de economia familiar utilizem-se de princípios do Voisin, não necessariamente do método inteiro. A grande vantagem do PRV é que o método permite a disponibilidade constante de forragem durante o ano todo com baixo custo. Principalmente, a partir de técnicas de sobre-semeadura. A rentabilidade também vai ser maior, considerando que o agricultor não precisa reformar área, usar adubo químico, uréia, calcário e fosfatagem. O Voisin é sinônimo de respeito à natureza e oferta de comida de qualidade ao gado o ano inteiro, com custo de produção que cabe sob medida no bolso dos produtores da agricultura familiar.


(*) Paulo Henrique Mayer é engenheiro agrônomo, especialista em agroecologia e doutorando em Meio Ambiente pela UFPR. Junto com Inês Claudete Burg, é autor do livro “Alternativas Ecológicas para a Prevenção e Controle de Pragas e Doenças” (30ª edição).


Contatos: - Paulo Henrique Mayer – (41) 3285-7564 / pauloaopa@terra.com.br.


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Bibliografia:

VOISIN, André. Dinâmica das pastagens: devemos lavras nossas pastagens para reformá-las? Trad. Prof. Luiz Carlos Pinheiro Machado. 2º ed. São Paulo. Mestre Jou, 1979

VOISIN, André. Produtividade do Pasto.: Trad. Norma B. Pinheiro Machado, revisão prof. Luiz Carlos Pinheiro Machado. 2º ed. São Paulo. Mestre Jou, 1981

MACHADO, Luiz Carlos Pinheiro. Pastoreio Racional Voisin: tecnologia agroecológica para o terceiro milênio. Porto Alegre: Cinco continentes, 2004. XXXi, 310 p.: il.

BURG, I. C. Mayer, P. H. Alternativas Ecológicas para a Prevenção e Controle de Pragas e Doenças. 30ª edição. Francisco Beltrão. ed. GRAFIT 2006. 153 p.

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