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sábado, 23 de junho de 2007

AQUECIMENTO GLOBAL: AGROECOLOGIA TENDE A SOFRER MENOS COM AS MUDANÇAS NO CLIMA


Pesquisador da UFPR defende capacitação dos agricultores e o combate à transgenia

“A agricultura de base ecológica e os próprios sistemas agroecológicos de produção tendem a sofrer menos com as mudanças climáticas e os problemas causados pelo aquecimento global”, é o que afirma o pesquisador da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Paulo Henrique Mayer. Doutorando em Meio Ambiente e Desenvolvimento, o engenheiro agrônomo Paulo Mayer é especialista em agroecologia e, muito conhecido entre técnicos, acadêmicos e agricultores familiares, ele é autor, junto com Inês Claudete Burg, do livro “Alternativas Ecológicas para a Prevenção e Controle de Pragas e Doenças”, que já se encontra em sua 30ª edição.

O pesquisador visitou, na semana passada, a deputada estadual Luciana Rafagnin, na 2ª Secretaria da Assembléia Legislativa do Paraná, e conversou com a parlamentar paranaense sobre os impactos do aquecimento global na agricultura familiar da região Sul. Sócio-fundador da Rede Ecovida de Agroecologia e membro do Comitê de Assessoria Externa da Embrapa Soja, como um dos consultores da sociedade civil, ele diz que já passou da hora de uma mudança de atitude na produção de alimentos e no modo de vida das pessoas: “não se trata mais de um diferencial de conduta, de uma alternativa de vida e de trabalho, mas estamos diante da necessidade concreta de mudarmos a matriz produtiva e a base tecnológica na agricultura”, afirma. Mayer critica a destruição ambiental causada pelo modelo da Revolução Verde e diz que é fundamental mover esforços e destinar grandes investimentos na capacitação dos agricultores, a fim de desmontar uma cultura e todo um raciocínio sobre o fazer agricultura, que se pautou por mais de 30 anos no extrativismo dos recursos naturais, na mecanização pesada no campo, na utilização de agrotóxicos importados e na monocultura de exportação. Ele aponta o investimento em capacitação como sendo o principal “insumo” da agricultura familiar daqui pra frente.

O primeiro impacto do aquecimento global, que é apontado por ele, recai sobre a produção e a produtividade, porque diz respeito à mudança nas estações e, consequentemente, nos cultivos agrícolas. Mayer lembra que os agricultores familiares têm conhecimentos histórico-antropológicos sobre as épocas de plantio e os manejos adequados a cada cultura. Em ambientes com estações bem definidas, com clara distribuição de períodos de calor, de frio, períodos úmidos e secos, a alteração climática vem acompanhada de inseguranças na atividade produtiva e passa a exigir um tempo maior de adaptação dos produtores. De acordo com ele, o primeiro sintoma dessas mudanças é percebido no ciclo da água, que tem relação direta com a época de plantio dos alimentos. A floração do milho, por exemplo, coincide com o período das chuvas e encontra na umidade um fator essencial de desenvolvimento da planta. Com a tendência de aumento do período de estiagens na região Sul e especificamente nas regiões em que predomina a agricultura familiar, a fecundação dos grãos fica bastante comprometida.

Reconstituir a natureza – A proteção das fontes, o reflorestamento da matas ciliares, a manutenção das áreas de preservação permanente (APP’s) e das reservas legais deixa de ser uma opção dos setores mais conscientes e torna-se um imperativo de conduta: ou se toma essa atitude agora, para garantir a sobrevivência dos ecossistemas produtivos, ou se condena desde já ao abandono da atividade agrícola, porque o pesquisador ressalta que para quem não se dedicar a reconstituir a natureza, a inviabilidade da propriedade rural será um fato irremediável. “Onde ainda há a disponibilidade de água, tem de garantir sua preservação. Mas, a tendência é de que ela falte. Diante de grandes períodos sem água, os agricultores fatalmente terão de adotar técnicas para reter esse recurso nos sistemas de produção, seja por meio da açudagem, do uso de cisternas e, até, lançando mão de barragens subterrâneas, para as condições mais extremas”, adverte.

O pesquisador da UFPR ressalta, ainda, as dificuldades que as economias locais e regionais dependentes da fruticultura temperada ou da produção animal no Sul enfrentarão com as alterações climáticas. É o caso do impacto do aquecimento global na polinização de frutíferas, como as da produção de pêssego, maçã, nectarina e ameixas, quando a região passar a não oferecer mais condições adequadas para esse tipo de cultura. Na produção animal, ele destaca como principais cadeias afetadas as do leite (que tem presença forte da agricultura familiar), de carnes e de fibras têxteis. Para ele, raças selecionadas e adaptadas ao clima mais frio da região Sul, podem perder sua função econômica e a situação exigirá a mudança da base genética, privilegiando raças mais adaptadas ao calor. À título de comparação, ele tece algumas projeções, como a troca do gado holandês pelas raças zebuínas e a das ovelhas de lã pelos animais deslanados. As pastagens de inverno também estariam com seus dias contados, aponta o pesquisador, à medida em que a temperatura na região for subindo.

Nem tudo está perdido - Antes que a “síndrome do pânico” gere uma onda de apatia, Paulo Mayer diz que os agricultores familiares têm de se preocupar, sim, e arregaçar as mangas, mas no sentido da mudança de postura e da adoção de técnicas de base ecológica. Porque a agricultura familiar, se comparada com a agricultura de grande porte, tem mais capacidade de se adaptar aos novos tempos. Diferentemente das economias dependentes da monocultura, a produção familiar por si só – e sendo diversificada – reúne condições sociais e de manejo com a natureza, que são capazes de suportar melhor e enfrentar os problemas decorrentes do aquecimento global. Assim, qual agricultura não está totalmente ameaçada e tem possibilidade de sobreviver em ambientes mais hostis? “Aquela de base mais ecológica, orgânica ou a própria agroecologia”, diz Mayer; “a que representar menor impacto ao meio ambiente; trabalhar com técnicas de policultivos; apresentar melhor cobertura vegetal; fizer uso de quebra-ventos e renques de pastagens; revolver menos o solo; adotar pastoreio racional, cultivos agroflorestais, cuidar das APP’s e preservar reservas legais”, completa.

“Transgênicos, nem pensar!” – Segundo o doutorando em meio ambiente, está comprovado cientificamente que o uso constante do glifosato – herbicida da soja transgênica – inibe o desenvolvimento das bactérias do gênero Rizhobium, presentes nas leguminosas, que são os microorganismos responsáveis pela fixação do Nitrogênio do ar, ou seja, pela fixação natural de Nitrogênio. Esse elemento, por sua vez, está diretamente ligado ao desenvolvimento da parte vegetativa e à produção de grãos, além de ser o principal constituinte da proteína do soja. Com a falta do ingrediente natural, aumentará a demanda pelo Nitrogênio artificial, que tem custo muito elevado, uma vez que é derivado de petróleo e já é possível imaginar os estragos causados pela valorização desse elemento artificial sobre o preço dos insumos (importados) das lavouras e no bolso dos produtores. Mayer lembra também que a aplicação do glifosato torna o sistema radicular da soja menos eficiente na absorção de nutrientes e da água, o que acarreta prejuízos ao desenvolvimento da planta e na produtividade da cultura. “É por isso que defendo que a agroecologia na agricultura familiar tem um papel fundamental a desempenhar nessa mudança de comportamento. A população urbana sabe exatamente como fazer a sua parte para diminuir a poluição nas cidades. Basta que o faça. Mas a agricultura, até em termos territoriais e pelo tamanho da área ocupada, pode dar uma contribuição maior no enfrentamento das problemáticas trazidas pelo aquecimento global e na reconstituição da natureza”, arremata o pesquisador.
Fonte/Autor:
MATÉRIA DE RESPONSABILIDADE DO GABINETE DA DEPUTADA LUCIANA RAFAGNIN/ Jornalista: Thea Tavares / (41) 9658-7588

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